Conto erótico: fetiche por pernas

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Helena chegou ao estúdio de dança às dezenove horas em ponto, como toda segunda-feira. Rua Augusta, terceiro andar de um prédio sem elevador, o cheiro de madeira encerada e suor antigo que ela já nem registrava mais. Trabalhava ali há dois anos, desde que deixara o emprego na seguradora. Ensinar balé para adultas principiantes pagava menos. Fazia ela acordar sem raiva do despertador, o que ninguém consegue comprar.

O novo aluno estava encostado na barra quando ela entrou.

Não devia estar ali. Os iniciantes esperavam sentados, perto da porta, com aquela cara de constrangimento que ela sabia reconhecer de longe. Ele não. Estava de calça de sarja e camisa social, como se tivesse saído do escritório sem passar em casa, e observava o salão vazio com uma atenção que não parecer pertencer a um homem que quis apenas experimentar uma aula.

"Você está na aula das oito", ela disse. "Esta é a turma avançada."

"Sei. Cheguei cedo."

Não pediu desculpas. Não se mexeu para sair. Helena notou que ele não olhava para o rosto dela, e também não olhava para o corpo, não daquele jeito que os homens olhavam, varredura rápida e sem vergonha. Olhava para as pernas dela, com uma coisa diferente. Concentração. Como quem lê um texto difícil e não quer perder uma linha.

"Você é o...?"

"Otávio. Liguei na semana passada. Vocês me encaixaram hoje."

"A turma avançada não é para iniciantes."

"Então me diz o que eu preciso fazer para não ser iniciante."

Ela riu antes de decidir rir. Ele não sorriu junto. Continuou ali, esperando a resposta com seriedade, e aquilo a desarmou mais do que qualquer piada faria.

"Volta às oito", ela disse. "Enquanto isso, alonga. Sozinho. Sem me olhar como se eu fosse um exercício."

Ele obedeceu. Sentou no chão, tirou os sapatos, e estendeu as pernas à frente com a rigidez de quem tem quarenta e tantos anos e passou-os sentado numa cadeira giratória. Helena fingiu organizar o som. Observou pelo espelho, porque o salão inteiro era espelho, e ele não sabia que ela via, ou sabia, e fingia não saber, e essa dúvida já era um jogo que nenhum dos dois tinha nomeado ainda.

A turma das oito veio, a aula correu, ele se esforçou sem talento nenhum e sem desistir um segundo. Das onze mulheres no salão, foi nele que os olhos de Helena caíram toda vez que o espelho permitia. Ele fazia tudo errado com uma teimosia que ela admitiu, lavando o rosto no banheiro depois, ter achado bonita.

Quando todos saíram, ele continuou na porta.

"Amanhã tem aula?"

"Terça é a de alongamento. Movimento lento. Piores pra você."

"Pior como?"

"Pior porque não tem pra onde fugir. Lento é tudo que você sente, sem música alta pra esconder."

Ele assentiu devagar, como se ela tivesse respondido outra pergunta, uma que ele não tinha feito.

"Então amanhã."

Não era exatamente uma pergunta. Helena deixou de responder e deixou de não responder ao mesmo tempo, o que já era uma resposta, e os dois sabiam.

Na terça, ele chegou com um calção de ginástica que não deixava nada a imaginção e uma camiseta velha de time que ela suspeitou ter sido escolhida justamente por não prometer nada. Turma pequena, quatro alunas, ele no canto. Os exercícios de alongamento obrigam o corpo a ficar em silêncio. Nenhuma música, só a voz dela corrigindo posturas, e a respiração de todos na madeira fria.

"Desce mais. Não força o joelho, deixa o peso fazer."

Helena se ajoelhou ao lado dele para corrigir o quadril, como fazia com todo mundo, mão no osso do quadril, mão no tornozelo, dois toques técnicos que em dez anos de ensino não tinham significado mais nada do que significam. Ele travou. Um enrijecimento súbito do corpo inteiro, do tipo que não se finge.

"Ei. Relaxe. Se doer eu paro."

"Não dói."

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"Então por que você tá dura como uma tábua?"

A frase saiu com o sentido técnico e permaneceu no ar com todos os outros. Ele respirou fundo uma vez, duas. O corpo cedeu dois centímetros, e ela sentiu o ceder sob a palma da mão, o músculo largando a própria defesa, e não retirou a mão na hora em que deveria ter retirado. Talvez três segundos demais. Talvez cinco.

Naquela noite, lavando a louça no apartamento em Santa Cecília, Helena percebeu que estava recontando a aula em voz alta, sozinha, e parou com a esponja na mão, envergonhada de si mesma. Quarenta e um anos. Divorciada. Não era uma adolescente. Mas o corpo não consulta a idade antes de agir, o corpo tinha decidido alguma coisa naquela terça e agora passava a exigir dela, em pontos que ela escolheu não nomear nem em pensamento.

A quinta-feira seguinte, ele apareceu com chocolate quente num copo térmico para ela e um para ele, como quem não quer nada com o gesto, e as alunas saíram uma a uma, e o salão ficou com aquela luz de fim de noite, os postes da rua desenhando retângulos amarelos no chão encerado.

"Você olha", ele disse, de repente. "Através do espelho. A semana inteira."

"Professora olha aluno. É o trabalho."

"Você corrige postura com as duas mãos na minha perna. Com as outras, é uma mão."

O coração não disparou, não parou nada, não houve arrepio nenhum. O que houve foi pior: lucidez. Ela viu a própria mão sobre o joelho dele, naquele momento, sem ter consciência de tê-la posto ali.

"Desde quando você percebe?"

"Primeiro dia. Você falou para eu não te olhar como se fosse um exercício. Então eu fiquei olhando a aula inteira para descobrir que olhar era permitido."

Helena riu, e a risada saiu meio torta, meio rendida, e ela se afastou um passo, só para provar a si mesma que ainda podia.

"Isso é assédio de aluno ou inquirição?"

"É confissão." Ele girou o copo térmico devagar entre as mãos. "Descobri uma coisa sobre mim, com uns vinte anos, num ônibus. Uma mulher de vestido sentada na frente de mim, cruzou as pernas, e esqueceu que eu existia. Eu não esqueci mais. Anos depois eu sei o nome de todos os músculos da perna, sei o que um tendão faz quando estica, e sei a diferença entre a perna de quem dança e a perna de quem caminha. A sua eu poderia desenhar de memória, desde a segunda-feira."

"Isso devia me incomodar."

"Te incomoda?"

Ela olhou para ele. Deveria dizer que sim. A boca dela escolheu outra coisa.

"Me incomoda não dizer que não."

Ele se aproximou devagar, com aquela mesma teimosia de principiante, sem talento e sem desistência. Parou perto o bastante para que ela sentisse o calor. Não tocou. Esperou. E ela entendeu, com uma clareza quase impertinente, que ele ia esperar o tempo que fosse, porque o que aquele homem queria, desde o primeiro dia, não era o corpo dela, era a permissão, e a permissão só valia se fosse dada por inteiro.

Helena estendeu a perna, apoiou o pé na barra, como nos exercícios. Devagar, alongando, o músculo da coxa firme, a pele arrepiando no ar frio do salão. Professora mostrando. Aluno aprendendo.

"Observa", ela disse. "Já que é o que você faz melhor."

Ele observou. Ajoelhou, sem tocar ainda, a um palmo da perna esticada, os olhos percorrendo o desenho do tendão atrás do joelho, a curva do músculo, o pé arqueado na barra. Helena sentiu cada ponto daquele trajeto como se o olhar tivesse peso. Tinha. Quando a mão dele finalmente subiu do tornozelo até a coxa, pressionando devagar, estudando, a respiração dos dois já tinha desacelerado tanto que dava para ouvir a rua lá embaixo, um carro, uma buzina longínqua.

"Faz de novo", ele disse, sem tirar o pé da barra, sem baixar a perna. "Aquele alongamento de terça. O que você corrigiu."

"Você vai sentir tudo."

"É a ideia."

Ela desceu com o tronco até encostar a testa na canela da própria perna, o corpo dobrado no limite, exatamente como ele errara tantos vezes, e as mãos dele seguiram o caminho que as dela tinham feito, quadril, músculo, tendão, e desta vez ninguém parou três segundos demais, porque já não havia medida, nem aula, nem terça, nem salão, só a madeira fria das costas dela contra o chão encerado e a luz amarela dos postes esticada por todo o comprimento de suas pernas, que ele beijou do tornozelo para cima, sem pressa nenhuma, como quem finalmente tem permissão de estar onde sempre quis.

A porta do estúdio ficou destrancada até muito depois. Nenhum dos dois perguntou o nome disso. Já tinham visto o suficiente de si mesmos para saber que algumas coisas ficam melhor sem batismo.

Conto erótico enviado por Renata Villar, de Curitiba.

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Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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