Conto erótico: O terceiro copo em Ipanema

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Eu não deveria ter aceitado o terceiro copo. Isso eu sabia já naquela noite, e sei até hoje, quando relembro devagar, do jeito que a gente relê uma carta que guardou sem querer guardar.

O apartamento era de Márcio, um cobertura emprestada por um tio que passava o ano em Lisboa. Vista para o mar, cadeiras de vime, um ventilador de teto que girava devagar como se também estivesse com preguiça de decidir alguma coisa. Eu tinha ido ao Rio a trabalho, congresso de medicina, três dias de palestras sobre coisas que já sabia. Márcio era colega de residência, anos antes. Ligou, convidou, eu aceitei.

O que ele não tinha dito, ou disse de um jeito que eu não entendi, era que Helena estaria lá.

Ela estava na varanda quando cheguei, apoiada no corrimão, um vestido claro que o vento mexia sem pedir licença. Márcio apresentou com aquela naturalidade dele, meio sem pressa, como quem entrega um objeto frágil e confia que a outra pessoa vai saber segurar. "Helena. O Ricardo, que eu já te falei."

"Ele falou mesmo", ela disse. Não apertou minha mão. Só me olhou por um segundo a mais do que o social permite, e voltou a olhar o mar.

Eu me sentei na beirada de uma cadeira de vime, com meu copo, e passei a maior parte da primeira hora tentando parecer confortável. Conversa banal. O congresso, a tabela do SUS, a obra da Linha Vermelha. Helena ria pouco, mas ria no momento certo, e isso desarmava. Em algum ponto ela comentou que o barulho do vento entre os prédios de Ipanema parecia respiração. Márcio concordou, eu concordei, e o silêncio que veio depois foi comprido, bom, do tipo que não pede socorro.

A coisa começou, se é que começou em algum ponto identificável, quando ela se inclinou para me servir e demorou. Não foi sedução teatral, não foi aquele movimento ensaiado de comercial. Foi um cansaço qualquer, um braço apoiado na minha ombrada por dois segundos, e o cheiro de protetor solar no fim do dia. Trivial, eu sei. Foi o trivial que me pegou.

À noite, quando Márcio foi buscar gelo na cozinha e demorou de propósito, ou por acaso, nunca consegui estabelecer, Helena virou para mim e perguntou:

"Você é dos que perguntam ou dos que arriscam?"

"Pergunto", respondi. "Geralmente me arrependo."

Ela sorriu de lado, um sorriso que eu ainda vejo quando fecho os olhos num ônibus vazio. "Então talvez você precise arriscar só um pouquinho hoje."

Márcio voltou com o balde de gelo e uma expressão que eu não sabia decifrar. Anos de pronto-socorro me ensinaram a ler rostos em três segundos. O dele naquela noite demorou três segundos e não entregou nada, o que, entendi depois, era a resposta inteira.

Ninguém falou o nome do que estava acontecendo. Isso me marcou mais do que qualquer outra coisa. Havia um acordo em andamento e nenhum de nós quis assinar o documento, para não assustar o próprio acordo.

Sentamos os três no chão da varanda, porque as cadeiras tinham ficado longe demais e nenhum de nós quis ser o primeiro a levantar. Helena tinha os pés descalços, esmaltado descascando no dedão, um detalhe tão pequeno e tão humano que me fez querer tocar antes de pensar. O oceano fazia aquele barulho constante de quem escuta sem julgar. Em algum momento, a mão dela pousou no meu joelho e não saiu. Em algum momento, a mão de Márcio pousou no ombro dela, e eu senti o peso do braço dele chegando através do corpo dela, como uma corrente que atravessa a água.

"Se você quiser ir embora, a porta é aquela", Márcio disse, com a voz mais calma do mundo. "Sem drama. Fica a terceira dose e um táxi pago até onde você estiver."

Eu fiquei olhando a porta. É bonito pensar depois que hesitei por convicção moral, mas não. Hesitei porque o corpo já tinha decidido e eu ainda tentava fingir que tinha voto na questão. Em geral temos. Naquela noite eu tinha, sim, e usei.

"O táxi fica pra depois", eu disse.

Helena riu baixo, quase sem som. Márcio serviu mais um pouco de uísque no meu copo, devagar, sem tirar os olhos dos meus, e a bebida escorreu pelo gelo com aquele chiado de coisa que desliza.

Não vou descrever o resto em detalhes, não por recato, mas porque há cenas que se desmontam quando a gente arruma demais. Ficam os pedaços: a respiração dela acelerando contra o meu pescoço, o riso curto de Márcio quando a cadeira de vime quase desabou, o ventilador de teto girando indiferente, o calor de três pessoas que decidiram parar de fingir. Havia pequenas negociações o tempo todo, uma mão que pedia licença antes de avançar, um "tá bom assim?" dito baixo, respondido com um "tá" que significava muito mais. Havia também momentos desajeitados, cotovelada, riso contido, e foi exatamente a desajeitação que tornou tudo crível.

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Perto das quatro da manhã, Helena adormeceu entre nós dois, com o cabelo espalhado no meu braço e a perna sobre a de Márcio. Ficamos acordados, os dois homens, sem saber bem o que dizer, até que Márcio quebrou:

"Ela sempre gostou de vocês, os reservados. Disse isso uma vez, bêbada. Eu nunca esqueci."

"Vocês fazem isso sempre?", perguntei, e logo me arrependi da pergunta, porque soou como cobrança.

"Não", ele disse. "Nunca. Aí é que está."

Eu dormi pouco. Fiquei vendo a luz mudar de cor sobre a água, pensando em como a vida a gente planeja em bloco de notas e depois vive em rascunho. De manhã, Helena fez café com o pano de prato no ombro, como se fôssemos um casal de dez anos com um convidado, e nenhum de nós mencionou a noite. Quando eu sa, ela me beijou no rosto, perto da boca, e disse:

"Cuida de você, doutor."

Depois da leitura

Você prestou atenção ou só leu com pressa?

Cinco perguntas sobre aquela noite na varanda. Ninguém assinou o documento do acordo, mas você ainda pode provar que escutou a conversa.

1. A cobertura onde tudo acontece não era de Márcio. De quem era?

2. Na varanda, Helena soltou uma pergunta que desarmou o narrador. Qual foi?

3. Quando Márcio ofereceu uma saída elegante, o que estava na mesa junto com a porta aberta?

4. O detalhe trivial que pegou o narrador, antes de qualquer coisa acontecer, foi:

5. No fim, o narrador pegou o táxi que Márcio pagou, mas não por medo. Por quê?

Eu peguei o táxi que Márcio pagou, afinal, mas não por medo. É que a cidade tinha amanhecido linda e eu precisava caminhar um pouco sozinho com aquilo. Algumas experiências são grandes demais para caber na frente do outro. A gente leva embora em pedaços e monta sozinho, quando consegue.

Até hoje, quando ouço vento entre prédios, penso em respiração. E penso no terceiro copo, aquele que eu não deveria ter aceitado, e que aceitaria de novo, sentado no chão frio de uma varanda em Ipanema, com o mar ali embaixo, escutando sem julgar ninguém.

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Conto erótico enviado por Laura Nascimento, de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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