Conto erótico: no sexy shop e a vitrine oculta

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Havia um objeto de vidro na prateleira mais alta, um daqueles que a gente vê e não entende de imediato. Foi o que me fez parar. Não o objeto em si, mas o reflexo dele. Atrás do vidro fosco, a luz da loja desenhava uma linha fina no meu rosto, e por um segundo eu não me reconheci ali.

Fazia semanas que eu ensaiava entrar naquela loja. Passava em frente, diminuía o passo, olhava a fachada como quem confere a hora num relógio que não é seu. Naquele sábado, o calor estava insuportável e a porta estava aberta. Entrei mais pelo ar-condicionado do que pela coragem.

O interior era mais claro do que eu imaginava. Prateleiras brancas, tudo muito organizado, uma música baixa que ninguém parecia ouvir. Uma moça no balcão levantou os olhos do celular, sorriu de um jeito que não cobrava nada, e voltou ao que fazia. Fiquei aliviada. Havia um casal rindo baixo perto dos óleos, e um homem de terno escolhendo algemas como quem escolhe gravata. Eu não sabia onde colocar as mãos.

Comecei pela lateral, pelos itens que pareciam menos ameaçadores. Velas, sais, um sabonete que cheirava a lavanda e a alguma outra coisa que não soube nomear. Peguei um frasco, li a embalagem, não entendi nada. Coloquei de volta. Senti o ar frio no pescoço e percebi que estava com a respiração curta, como se estivesse fazendo algo errado.

Foi quando ele apareceu ao meu lado. Não apareceu, na verdade. Estava ali desde antes, e eu é que não tinha notado. Um homem de camisa azul, mangas dobradas, olhando a mesma prateleira que eu. Não disse nada. Pegou uma caixa, virou, leu o verso, devolveu. E eu ali, paralisada, fingindo interesse numa vela que já tinha lido três vezes.

Ele falou primeiro.

— Essa é boa. — A voz era grave, tranquila, sem malícia. — A de baunilha, digo. A lavanda tem um cheiro meio de avó.

Eu ri. Um riso nervoso, curto. Disse que era exatamente o que eu tinha pensado, embora não tivesse pensado nada. Ele sorriu de lado, e eu notei que tinha uma dessas caras que a gente não lembra depois com precisão, mas que parecem familiares na hora. Cabelo escuro, mãos grandes, um relógio simples no pulso.

— Primeira vez? — perguntou, sem pressa.

— É tão óbvio assim?

— Não. É que você olha tudo como se fosse explodir.

Fiquei sem resposta. Ele não insistiu. Voltou a olhar a prateleira, e por um instante achei que a conversa tinha acabado ali, do jeito que conversas de loja acabam. Mas ele continuou, num tom mais baixo, quase para si mesmo.

— Eu venho aqui às vezes. No começo também achava que ia explodir.

Havia algo no jeito como ele dizia as coisas. Sem pressa, sem querer provar nada. Ele pegou a vela de baunilha e me estendeu.

— Leva essa. Se não gostar, me culpa.

Nossos dedos se tocaram na hora de passar o objeto. Foi rápido, um toque de nada, mas eu senti o calor da mão dele contra o vidro frio e fiquei com aquilo na pele por mais tempo do que devia. Agradeci. Ele assentiu e foi para o fundo da loja, e eu fiquei ali, com a vela na mão, o coração batendo num lugar estranho.

Deveria ter ido embora. Mas não fui. Fiquei perto dos livros, folheando um que tinha fotos que eu não sabia que existiam. A moça do balcão passou por mim e disse que podia abrir qualquer um, se eu quisesse. Sorri, disse que estava só olhando. Ela não insistiu. As pessoas ali pareciam todas treinadas para não pressionar.

Ele voltou. Trazia um pacote pequeno, embrulhado em papel pardo. Ficou a uma distância que não era perto nem longe, um espaço que dava para sentir o cheiro dele, algo amadeirado, limpo.

— Vai levar só a vela? — perguntou.

— Não sei. Ainda estou decidindo o que vim buscar.

— E o que você veio buscar?

A pergunta ficou no ar. Eu poderia ter dito qualquer coisa. Poderia ter rido, dado de ombros, virado as costas. Mas havia algo naquela loja, naquela luz branca, no jeito calmo daquele homem, que me desarmava. Como se ali dentro as regras normais não valessem. Como se a gente pudesse dizer verdades que não se diz na rua.

— Não sei explicar — falei. — Acho que vim buscar uma coisa que eu nem sei o nome.

Ele me olhou por um tempo. Não um olhar de quem avalia, mas de quem escuta. Os olhos dele tinham uma cor indefinida, entre o cinza e o mel, e a luz da loja fazia com que parecessem sempre prestes a mudar.

— Tem muita coisa aqui que a gente não sabe nomear — disse ele. — A maioria, na verdade.

Apontou com o queixo para a prateleira atrás de mim, onde havia uma fileira de caixas escuras. Não olhei. Continuei olhando para ele.

O silêncio entre nós se esticou. Não era um silêncio vazio. Era cheio de coisas não ditas. Ele abriu a boca, parece que ia falar, e desistiu. Eu também ia dizer algo, não disse. Uma mulher passou carregando um saco grande, e nós dois nos afastamos um pouco para deixar passar. Quando voltamos a ficar próximos, a distância tinha diminuído. Ou eu tinha diminuído. Não sei.

— Eu podia te mostrar — falou ele, baixo. — Se você quisesse. Não tem nada aqui que morda.

— E se eu quiser que morda?

Saiu antes que eu pensasse. Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso, e depois riu. Um riso de verdade, que lhe mudou a cara toda.

— Aí a conversa é outra.

Foi a vez dele de ficar sem resposta. Ficamos os dois ali, rindo baixo, e alguma coisa se desfez entre nós. A tensão não sumiu, mas mudou de forma. Ficou mais leve e mais perigosa ao mesmo tempo.

Ele estendeu o pacote embrulhado.

— Segura um segundo.

Obedeci sem pensar. O pacote era leve. Ele tirou o relógio do pulso, guardou no bolso da camisa, e depois pegou de volta o embrulho. O gesto foi banal. Mas quando as mãos dele roçaram as minhas, ele não se afastou. Ficou ali, com os dedos sobre os meus, o papel pardo entre nós.

— Você está tremendo — disse.

— Está frio.

— Não está.

Olhei para a mão dele sobre a minha. A pele morena, os nós dos dedos, uma cicatriz fina perto do polegar. Senti o cheiro amadeirado mais perto agora, e uma coisa dentro de mim se aquietou e se agitou ao mesmo tempo. Não era medo. Era uma espécie de reconhecimento. Como se eu estivesse esperando por aquilo sem saber.

Ele soltou a mão devagar. Deu um passo para trás, e eu senti a falta do calor como se tivesse perdido alguma coisa.

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— Vou pagar isso — disse ele, indicando o pacote. — E depois, se você quiser, a gente toma um café ali na esquina. Sem compromisso. Só para você parar de olhar as coisas como se fossem explodir.

Eu disse que sim. Não pensei. Disse sim e senti o rosto esquentar.

Ele foi até o balcão. A moça passou o cartão dele, embalou tudo, e ele voltou com dois pacotes. Me entregou o da vela.

— A vela é por minha conta — disse.

— Não precisa.

— Eu sei. Mas quero.

Saímos juntos. O calor da rua nos atingiu como uma parede, e ele riu, passando a mão no cabelo. Andamos até a esquina sem falar. O café era pequeno, com mesas de fórmica e um ventilador de teto que girava devagar. Sentamos perto da janela. Ele pediu um expresso, eu pedi o mesmo.

— Qual é o seu nome? — perguntei, e só então percebi que tinha passado todo aquele tempo sem saber.

Ele disse. Eu disse o meu. Repetimos os nomes um do outro como se estivéssemos aprendendo uma palavra nova. Ele tinha um jeito de olhar que não desviava, mas também não invadia. Ficava ali, presente.

Falamos de coisas pequenas. Do calor, do bairro, de um filme que os dois tínhamos visto e odiado. Ele contou que trabalhava com restauro de móveis antigos e que às vezes passava horas lixando uma perna de cadeira sem pensar em nada. Eu falei do meu trabalho, das planilhas que eu odiava, do apartamento pequeno demais. Rimos. Em algum momento, a mão dele tocou a minha de novo, de propósito agora, e ficou.

Não houve pressa. O café esfriou nos copos. O ventilador girava. Lá fora, as pessoas passavam sem olhar para dentro.

— Sobre o que você disse antes — falou ele, depois de um tempo. — Sobre querer que morda.

— Eu disse?

— Disse. Eu lembro.

Fiquei olhando a mão dele sobre a minha. A pele quente, o polegar desenhando círculos lentos no dorso da minha mão. Senti um arrepio subir pelo braço.

— Eu não sei o que eu quis dizer — admiti.

— Tudo bem. — Ele apertou de leve os meus dedos. — A gente descobre junto. Ou não descobre. Sem pressa.

Havia algo de reconfortante naquela frase. Sem pressa. Como se ele soubesse que o que estava acontecendo entre nós precisava de tempo, de ar, de espaço para crescer. Não era um convite para a cama. Era um convite para ficar.

Pagamos a conta. Na rua, ele perguntou se eu queria que ele me acompanhasse até em casa. Eu disse que não precisava. Ele assentiu, sem insistir, e ficamos parados na calçada, um de frente para o outro.

— Vou guardar seu número — disse ele. — Se você quiser.

Dei o número. Ele salvou, olhando para a tela, e depois levantou os olhos.

— Vai usar a vela hoje? — perguntou, com um meio sorriso.

— Talvez.

— Se usar, me conta depois.

— Isso é uma coisa estranha de se pedir.

— Eu sei. — Ele riu. — Mas eu sou meio estranho.

Ele se inclinou e beijou meu rosto, perto do canto da boca. Um beijo casto, rápido, mas que deixou a pele formigando. Depois virou as costas e foi embora, sem olhar para trás, o pacote pardo debaixo do braço.

Voltei para casa a pé. O sol estava baixo, o céu cor de laranja. A vela pesava na sacola. Em casa, coloquei na mesa da sala e fiquei olhando. Não acendi. Ainda não. Fui tomar banho, e debaixo do chuveiro fiquei pensando na mão dele sobre a minha, na cicatriz perto do polegar, na voz baixa dizendo que não estava frio. Senti o desejo subir devagar, sem urgência, como uma maré. Não fiz nada. Deixei que fosse.

Quiz: A vitrine e o que ficou

Teste o que você realmente guardou da história. Sem pressa.

1O que fez a narradora finalmente entrar na loja naquele sábado?

2Como o homem de camisa azul descreveu a vela de lavanda?

3Qual foi a reação da narradora quando ele perguntou se era a primeira vez dela ali?

4O que a narradora respondeu quando ele perguntou o que ela tinha vindo buscar?

5O que aconteceu com a vela depois que a narradora chegou em casa?

Mais tarde, deitei na cama e peguei o celular. Havia uma mensagem dele. Só uma linha.

"Cheguei. A vela está acesa aí?"

Respondi que não. Ele mandou de volta um "ainda bem". E eu fiquei rindo sozinha no escuro, sem saber direito por quê.

A vela continua na mesa, intacta. Às vezes passo por ela e lembro do cheiro de baunilha e da mão dele sobre a minha. Não sei se vai dar em alguma coisa. Não sei se vou ligar. Mas naquele sábado, numa loja que eu passei semanas sem coragem de entrar, alguma coisa mudou de lugar dentro de mim. E eu ainda não sei o nome. Talvez nunca saiba. Talvez não precise.

Conto erótico enviado por Helena Vaz

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Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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