Conto erótico: A máscara na feira de Santana

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A feira de sábado começava cedo, antes do calor engolir a cidade. Beatriz chegou às sete com a lista de compras amassada na bolsa e a paciência curta, como sempre acontecia quando a semana tinha sido longa demais. Trinta e quatro anos, advogada, sola de encontros que acabavam em politeza forçada. Vinha ali pela cenoura, pela goiaba, por qualquer coisa que a obrigasse a sair de casa.

Foi na barraca dos queijos que ela viu a máscara primeiro.

Não a máscara de folião, não a de carnaval. Uma máscara pequena, de couro cru, escura, pendurada num varão de madeira entre potes de mel e rapadura. Cobriria só os olhos de alguém. Parecia fora de lugar ali, entre cheiro de queijo coalho e fumaça de carne de sol, e talvez por isso ela parou.

"Bonita, né."

A voz veio de trás do balcão. Homem de uns quarenta, camisa de linho com as mangas dobradas até o cotovelo, mãos ocupadas em embrulhar um queijo em papel pardo. Ele nem tinha erguido os olhos direito. Só o suficiente.

"É sua?", perguntou ela.

"Minha e não é. Fiz pra uma encomenda. O cliente não buscou."

"Que tipo de cliente encomenda uma máscara numa feira?"

"Aí é que tá." Ele sorriu pela primeira vez, e foi um sorriso curto, quase desculpando-se por existir. "Posso te mostrar os queijos?"

Ela comprou queijo de manteiga que não precisava. Reparou nisso no caminho de volta ao carro, e riu sozinha, sem graça.

Voltou na semana seguinte. Disse a si mesma que era pelo queijo, e era verdade apenas pela metade.

Ele se chamava Rodrigo. Soube isso na terceira feira, quando a chuva desabou sem aviso e todo mundo se espremeu sob as lonas das barracas. Ela acabou ao lado do varão de madeira, perto o bastante pra ver que as mãos dele tinham cicatrizes finas, de quem trabalha com ferramenta.

"Chuva de março", ele disse. "Nem bem-vinda ela é."

"A máscara ainda tá aí."

"A máscara ainda tá aí."

Não foi conversa de nada. Foi o modo como ele disse, repetindo a frase dela devagar, como se provasse o gosto dela. Beatriz olhou a chuva caindo na lama entre as barracas e sentiu uma coisa pequena e incômoda, tipo quando a gente esquece um nome no meio da frase.

Ele não olhava pra ela do jeito que os homens costumam olhar. Olhava como quem pergunta. E ela, que estava acostumada a responder tudo, descobriu que gostava de não responder.

"A máscara", ela disse numa das feiras seguintes, quando já sabia que ele guardava o melhor queijo pra ela escondido sob o balcão, "por que você não vende a outra pessoa?"

"Porque não apareceram mais é você perguntando dela."

Silêncio. Um silêncio comprido, do tipo que muda o jeito de duas pessoas respirarem perto uma da outra.

"Isso é coisa que se fala?", ela perguntou.

"Não sei. Você tá indo embora?"

"Não."

Ele assentiu devagar, como se essa única sílaba fosse uma decisão grande demais pra confirmar depressa.

Descobriu o resto aos pedaços, do jeito que se descobre as pessoas. Que ele tinha sido artesão de máscaras pra grupos de maracatu e mamulengo antes de herdar a barraca do tio. Que a encomenda era de uma mulher que queria "uma máscara que ninguém soubesse que era máscara", e que a frase o tinha perseguido tanto que ele fez a peça três vezes até acertar. Que a mulher nunca voltou, e que ele nunca soube explicar por que não vendia.

"Uma máscara que ninguém soubesse que era máscara", repetiu Beatriz. "O que isso quer dizer?"

"Quer dizer que tem gente que precisa de uma permissão. Um disfarce qualquer, só pra se deixar ser."

"Era isso que ela queria? Uma permissão?"

"E você?"

A pergunta ficou no ar entre os potes de mel. Beatriz pensou nos seus encontros educados, nos vestidos certos, no jeito com que ela media cada palavra antes de soltar. Pensou em quantas vezes tinha querido outra coisa e tinha dito a coisa certa.

"Não sei", mentiu.

Ele sabia que ela mentia. Foi visível no jeito dele, no meio sorriso que não terminou de nascer. E não insistiu. Isso, descobriu ela, era o que mais desarmava: um homem que sabia esperar.

Numa sexta, ele mandou mensagem. O número ela nem lembrava de ter dado. A mensagem era só uma foto da máscara sobre a mesa da oficina, com a luz do fim de tarde atravessando o couro. Nenhuma palavra.

Ela respondeu depois de meia hora, tendo digitado e apagado três rascunhos.

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"Me manda o endereço."

A oficina ficava nos fundos da casa dele, num bairro de chão de barro e mangueira na calçada. Cheirava a couro, a cera, a madeira serrada. A máscara estava sobre a bancada, sozinha, iluminada por uma lâmpada baixa.

Beatriz pegou a peça. Couro macio, do lado de dentro, como pele aquecida pelo sol. Do lado de fora, era só uma forma escura, sem enfeite, sem cor.

"Veste", ele disse.

Não era ordem. Era quase um pedido de desculpa.

Ela vestiu. O couro esfriou as pálpebras e o mundo virou sombra e recorte, a lâmpada vira um brilho torto, a figura dele vira só contorno, ombro, mãos, o branco curto do sorriso.

"Agora finge que eu não sou eu", ele disse, perto. Muito mais perto do que a voz dela esperava.

"Você é a última pessoa que consegue ser outra."

"É você que tá com a máscara."

Era verdade. Estava. E era justamente isso: a máscara era dela, e a única coisa que ela escondia era o quanto, nos últimos dois meses, ela tinha feito fila de mercado, comprado queijo demais e escolhido blusas por causa de uma barraca.

Ela tirou a máscara devagar. Não porque queria ser sincera. Porque queria ver o rosto dele vendo ela à luz da oficina, sem feira, sem gente, sem fila de queijo.

Rodrigo segurou a mão que ainda tinha a máscara. Apertou de leve, só os dedos, do jeito de quem pede licença até pra respirar.

"Se você ficar", ele disse, "fica sabendo que eu faço isso mal. Sem arte. Só verdade."

"Verdade é o que eu mais tenho fugido."

"Fuja pra cá, então."

Ela riu, e o riso morreu no meio, porque a distância entre os dois tinha acabado sem que ninguém decidisse. O beijo veio desajeitado, torto, com nariz batendo e ninguém querendo recuar pra consertar. As mãos dele eram exatamente como ela imaginou que seriam, rudes de cera e ferramenta, quentes nas costas dela por cima do tecido.

A máscara caiu da mão dela na bancada, de caranguejo, como coisa pequena que já cumpriu o que tinha vindo fazer.

Mais tarde, no colchão estreito da oficina, com o cheiro de couro no travesseiro alheio e a lâmpada apagada por acordo silencioso, Beatriz pensou que a máscara nunca tinha sido dele. Nunca tinha sido da cliente. Era de quem vestisse. E ela a tinha vestido por dentro durante meses, na fila do mercado, nos encontros certos, na vida toda.

A noite que se seguiu não teve nada de disfarce. Foi lenta onde podia ser lenta, urgente onde não dava pra esperar, feita de riso baixo e de nomes que os dois descobriram sabendo sem nunca ter combinado.

De manhã, ele embrulhou queijo em papel pardo e escreveu o telefone de novo, sem motivo, no verso. Ela guardou o papel na bolsa, do lado da máscara, que ele tinha posto lá sem pedir, sem vender.

Você prestou atenção ou só olhou o queijo?

Um quiz sobre máscaras, feiras e desejos que a gente finge não ter. Cinco perguntas, nenhuma piedade.

Pergunta 1

Beatriz foi à feira de sábado para comprar o quê, oficialmente falando?

Pergunta 2

Qual era a exigência estranha da cliente que encomendou a máscara e nunca voltou para buscá-la?

Pergunta 3

Quando Rodrigo perguntou se a cliente queria uma permissão, e devolveu a pergunta com um simples "E você?", o que Beatriz respondeu?

Pergunta 4

Na oficina, com a máscara nas mãos, o que Beatriz percebeu sobre a tal permissão que a peça representava?

Pergunta 5

Qual foi a mentira que Beatriz contou a si mesma, e que ela mesma desmontou no caminho de volta ao carro, logo na primeira visita à feira?

No caminho pro carro, ela pensou em não dizer nada. Só voltar no sábado, como sempre, e fingir que feira é lugar de cenoura e goiaba.

Mas aí olhou a máscara na bolsa e sorriu.

Não tinha mais pra que fingir.

Conto erótico enviado por Renata Vilela, de Feira de Santana, Bahia.

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Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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