Conto erótico: na padaria o pão das seis

Fetiche Em Pe Logo

Havia um cheiro de farinha queimada e giz no ar. Não sei por que lembrei disso hoje, anos depois, enquanto esperava o café passar. O pão nosso de cada dia. O pão que a gente compra sem pensar, que a gente come sem olhar.

Mas naquela manhã de terça, eu olhei.

A padaria era pequena, dessas de bairro, com azulejo branco que já foi branco e um balcão de vidro onde os sonhos ficavam enfileirados. Pão de queijo, croissant, aquele bolo de fubá que ninguém comprava mas todo mundo elogiava. Eu ia lá todas as manhãs antes do trabalho. Não por causa do pão. Sempre foi pelo pão.

Ela estava atrás do balcão. Não era nova na cidade, mas era nova ali. Substituía a dona antiga, que se aposentou depois de quarenta anos vendendo pão com a mesma cara de quem já viu tudo. A nova era diferente. Não sorria demais, não falava demais. E era justamente isso que me fazia voltar. A discrição dela. O jeito como embrulhava o pão sem pressa, como se aquele gesto importasse.

Naquela terça, cheguei antes das seis. A rua ainda estava escura, o céu tinha aquele tom de cinza que antecede a manhã. A porta estava entreaberta, a luz lá dentro amarela e fraca. Ouvi o barulho da máquina de café, aquele chiado úmido que parece um suspiro comprido.

Entrei. Ela estava de costas, alcançando algo na prateleira alta. A blusa branca subiu um pouco, revelando a linha da cintura, aquela curva que a gente vê e depois finge que não viu. Não fingi bem.

Bom dia, eu disse.

Ela se virou. Os olhos dela eram escuros, de um jeito que não combinava com a claridade da padaria. Pareciam feitos para outro lugar. Para um quarto, talvez. Para a noite.

Bom dia, ela respondeu. O tom era neutro, mas o olhar demorou um segundo a mais do que precisava.

Pedir o pão de sempre virou um ritual estranho. Eu apontava, ela pegava. Nossos dedos quase se tocavam no papel manteiga. Quase. Aquele quase começou a me incomodar.

Na quarta-feira, choveu. Entrei encharcado, o cabelo pingando, o casaco pesado. Ela riu. Foi a primeira vez. Uma risada curta, surpresa, como se tivesse escapado sem permissão.

Vai pegar um resfriado, ela disse.

Já estou resfriado, menti.

Ela pegou um pão de queijo, ainda quente, e estendeu na minha direção. Não pedi. Ela só deu. O calor atravessou o papel e chegou na minha mão. Comi ali mesmo, encostado no balcão, enquanto ela organizava as bandejas. Não falamos nada. O silêncio não era vazio. Era cheio de alguma coisa que nenhum dos dois queria nomear.

Na quinta, cheguei mais cedo. Ela também. A porta estava aberta, mas as luzes ainda apagadas. Só a claridade da rua entrava pelas vitrines, aquele azul de madrugada.

Ela estava sentada no banquinho atrás do balcão, tomando café. Me viu e não se levantou. Fiquei parado na porta.

Ainda não abri, ela disse.

Eu sei.

Não me movi. Ela também não. O relógio da parede fazia um barulho irritante, tic, tic, tic, e eu comecei a contar os segundos só para não ter que pensar em outra coisa. Doze. Quinze. Ela levantou. Veio até a porta. Ficou perto o suficiente para eu sentir o cheiro de café na respiração dela.

Você vem todo dia, ela disse. Baixinho.

Venho.

Por quê?

Eu podia ter dito muitas coisas. Que o pão era bom. Que era caminho do trabalho. Mas a verdade era mais simples e mais difícil. Eu vinha porque precisava ver se o quase de ontem ainda estava lá.

Ela não esperou resposta. Virou de costas e foi acender as luzes. A padaria acordou de repente, fluorescente e barulhenta, e o momento se desfez como fumaça.

Sexta-feira. Não fui.

Sábado. Também não.

Conto erótico: A máscara na feira de SantanaConto erótico: A máscara na feira de Santana

No domingo, acordei com o cheiro de pão imaginário. Um cheiro fantasma que não existia no meu apartamento. Fui até a janela, olhei a rua vazia. Pensei nela sentada no banquinho, na luz azul, no tic do relógio.

Na segunda, voltei.

Ela não disse nada. Pegou o papel manteiga, o pão de sempre, e embrulhou. Mas quando foi me entregar, segurou por um segundo a mais. Só um segundo.

Desculpa, eu disse. Não sei por quê.

Ela me olhou. Aqueles olhos escuros que não pertenciam à padaria.

Não precisa, ela respondeu.

E então, num gesto que ainda hoje me pega de surpresa, ela passou a mão pelo meu rosto. Rápido. Quase imperceptível. Como quem tira um fio de cabelo ou uma migalha. Só que não tinha migalha nenhuma. Só o toque dos dedos dela na minha pele, mornos de segurar o pão.

Ninguém viu. A padaria estava cheia, o barulho da máquina de café cobria tudo. Mas eu senti como se todo mundo tivesse visto. Como se o mundo inteiro soubesse que alguma coisa tinha mudado.

Comprei o pão. Paguei. Saí.

Na rua, o vento frio bateu no lugar onde a mão dela tinha estado. E eu percebi que não era o pão que me fazia voltar. Nunca foi.

Hoje, anos depois, ainda passo em frente àquela padaria. Mudou de dono outra vez. O azulejo continua o mesmo, mas o banquinho atrás do balcão não existe mais. Às vezes fico parado na calçada, lembrando do cheiro de farinha queimada e giz, do tic do relógio, do quase que nunca virou nada.

Quiz: O pão das seis

Você leu com atenção ou só passou os olhos enquanto pensava em pão de queijo?

1Por que o narrador voltava à padaria todas as manhãs, segundo o próprio texto?

2O que aconteceu na quinta-feira, quando o narrador chegou mais cedo e as luzes ainda estavam apagadas?

3O que o narrador fez na sexta e no sábado?

4Na segunda-feira, ao voltar, o que ela fez de diferente ao entregar o pão?

5O que o narrador conclui sobre o que o fazia voltar à padaria?

A gente não se falou mais. Ela sumiu uma semana depois, sem aviso, sem despedida. A cidade tem dessas coisas. Encontros que duram o tempo de um pão esfriar.

Mas tem manhãs, como hoje, em que o café parece ter outro gosto. E eu fico ali, esperando, sem saber exatamente o quê.

Talvez o quase.

Conto erótico enviado por Helena Marques

Conto erótico: A máscara na feira de SantanaConto erótico: A máscara na feira de Santana
Conto erótico: no mercado sempre se esconde segredosConto erótico: no mercado sempre se esconde segredos

Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Go up