
Conto erótico: no mercado sempre se esconde segredos

O convite chegou numa terça-feira, dentro de um envelope de papel grosso que Helena deixou dois dias sobre a mesa da cozinha antes de abrir. Não por desinteresse. Por teimosia. Ela conhecia bem o tipo de festa descrito no cartão, ou achava que conhecia, e havia uma parte dela que preferia continuar achando.
No fim, abriu porque uma amiga tinha insistido demais e porque a semana estava longa demais.
O baile acontecia num casarão do Bom Retiro, em São Paulo, restaurado por dentro e aparentemente abandonado por fora. Na entrada, uma mulher de luvas pretas entregou a cada visitante uma máscara simples, de venetiana, e disse apenas: "Só sai daqui quem entrar."
Helena achou a frase ridícula. Guardou-a mesmo assim, do jeito que se guarda uma frase ouvida numa noite que ainda não começou.
Pôs a máscara e deixou de ser Helena por um instante. Não no sentido dramático. No sentido pequeno, quase doméstico: ninguém ali sabia o nome dela, ninguém esperava nada dela, e essa ausência de expectativa era uma forma rara de liberdade.
Foi na segunda hora que ela o viu.
Ele estava encostado numa coluna perto do balcão de bebidas, e a máscara dele era diferente de todas as outras. Não cobria o rosto inteiro. Cobria apenas a metade esquerda, presa por um cordão fino, como se tivesse sido feita sob medida para alguém que não queria esconder tudo. O lado visível do rosto tinha um cansaço bonito, desses que não se compram em academia nem em salão.
Helena percebeu que o encarava há tempo demais. Desviou o olhar. Bebeu um gole do vinho que nem gostava.
Quando voltou a olhar, ele continuava lá, e agora olhava para ela.
Ela pensou em fingir que não notava. Chegou a ensaiar mentalmente um gesto de indiferença, algum comentário com a pessoa ao lado, mas a pessoa ao lado já tinha migrado para a pista, e sobrou ela mesma, parada, sem plano, sentindo aquela atenção específica que a máscara tornava mais fácil de suportar. Se ele não conhecia o rosto dela, o olhar dele não era sobre ela. Era sobre uma estranha. Essa distinção, descobriu, a aliviava e a incomodava na mesma medida.
Ele atravessou o salão sem pressa. Parou a uma distância respeitável.
"Sua máscara está torta", disse.
Ela levou a mão ao rosto antes de pensar. Estava certa, de fato. A faixa apertava mais de um lado.
"Obrigada. Devia ser um disfarce perfeito."
"Perfeito não é disfarce. É fantasia."
"Existe diferença?"
"Existe. Disfarce quer esconder. Fantasia quer ser vista."
Helena riu com o canto da boca, aquele riso que a gente dá quando alguém diz algo melhor do que merecia a conversa. Ele se chamava Renato, mas demoraram uns vinte minutos para trocar nomes, e quando trocaram, ambos riram do absurdo de apresentar um nome a uma pessoa que continua com o rosto coberto.
"Então a sua máscara", ela perguntou, "é fantasia ou disfarce?"
"Depende de quem está olhando."
Ele não explicou. Ela não insistiu. A noite estava no começo e havia algo de bom em não saber ainda.
Conversaram perto de uma janela que dava para um pátio interno, onde chovia uma chuva fina que ninguém parecia notar. Ele era restaurador de móveis, tinha as mãos marcadas por um trabalho que ela não precisou que ele explicasse. Numa festa cheia de gente tentando parecer interessante, aquele homem falava de verniz e de madeira antiga como quem fala de pessoas. Disse que certos móveis mentem sobre a própria idade. Disse que o trabalho dele era ouvir o que a madeira não diz.
"Isso é conversa de festa", ela disse.
"É. Mas eu diria de novo amanhã, sóbrio."
Foi nesse momento que ela percebeu que tinham se aproximado sem que nenhum dos dois tivesse dado um passo. A distância entre os corpos tinha diminuído como a maré, sem anúncio. O braço dele roçou o dela quando ele se voltou para apontar algo no pátio, e o toque durou um segundo e foi desculpado e não significou nada, e ela passou os três minutos seguintes pensando exatamente nele.
Renato, por sua parte, começou a cometer erros pequenos. Chamou o vinho de ruim e pediu outro igual. Contou um caso da oficina duas vezes, sem perceber, e na segunda vez Helena não interrompeu porque queria ouvir como ele mudava os detalhes. Ele que segurava a conversa com facilidade, agora fazia perguntas curtas demais. Como quem tem medo de uma resposta e pergunta assim mesmo.
"Precisa de um motivo pra estar aqui?", ela perguntou de repente, sem saber de onde a pergunta vinha.
"Precisa de um motivo pra estar respondendo?"
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi daqueles silêncios que expõem. Ela olhou para a máscara dele, para o lado coberto, e sentiu uma curiosidade física, quase manual, de saber o que havia ali embaixo. Não o rosto. Ela sabia que o rosto era o de menos. Queria saber o que a máscara escondia de verdade, se é que escondia alguma coisa.
A música engoliu a conversa por alguns minutos quando a orqueira subiu o volume. Dançar não foi decidido. Aconteceu. Ele estendeu a mão de um jeito esquisito, tímido demais para o homem que dominava a conversa, e ela aceitou de um jeito esquisito, mais rápido do que planejava aceitar qualquer coisa naquela noite.
Conto erótico: no comércio usando a máscara e o desejoDançaram mal, os dois. Ele pisava fora do tempo e ela ria disso, e em algum momento de rir o corpo dela encostou de vez no dele e parou de recuar. A mão dele na cintura dela subiu um centímetro e ficou lá, parada, esperando alguma coisa que ela não deu sinal de dar, e depois desceu de novo, e essa hesitação valeu mais do que qualquer gesto de efeito.
"Você hesitou", ela disse, perto do ouvido dele, para ser ouvida por cima da música, ou por causa dela.
"Você notou."
"Eu noto tudo. É meu defeito."
"Não parece defeito."
"De máscara, você não sabe nada de mim."
Ele afastou o rosto dois dedos e a olhou. Foi a primeira vez, na noite inteira, que alguém olhou para ela como quem monta um quebra-cabeça com metade das peças e gosta da montanha assim.
"É justamente o que eu sei", ele disse.
Mais tarde não saberiam dizer quem conduziu quem. Subiram a escada do casarão atrás de um barulho de porta aberta e acharam uma biblioteca vazia, com livros de verdade nas estantes e um abajur aceso como se alguém tivesse previsto a cena. Chovia mais forte no pátio agora, e a janela alta ficava atrás deles como uma testemunha muda.
Foi ali que Helena tirou a máscara dele.
Devagar. Primeiro o nó, que ela desfez com os dedos trêmulos de raiva contra os próprios dedos. Depois a peça afastada do rosto, e o que apareceu embaixo não surpreendeu e nem precisava: uma cicatriz fina que descia da sobrancelha até o topo da maçã do rosto, antiga, clara.
"Acidente", ele disse, antes da pergunta. "Oficina. Há uns anos."
"Foi por isso que você veio hoje?"
"Foi por isso que você tirou?"
Ela não respondeu com palavras. Respondeu com o polegar, que percorreu a cicatriz de cima a baixo uma vez, com a delicadeza de quem lê em braile. Ele fechou os olhos, e foi o gesto mais sincero da noite inteira, mais sincero que qualquer frase trocada no salão.
Ele tirou a máscara dela em seguida, e nesse ponto nenhum dos dois pensava em disfarce nem fantasia. As mãos dele no rosto dela, o couro cabeludo, o maxilar. O beijo veio depois de uma pausa longa demais, daquelas pausas em que o corpo já decidiu e pede ao pensamento que apenas acompanhe.
E acompanharam. Ele a puxou pela cintura até o sofá fundo junto à estante, e Helena sentou sobre ele, o vestido subindo sem cerimônia, os dois ainda meio rindo porque o riso tinha virado a única linguagem possível. As mãos dele desceram pelas costas dela com a lentidão de quem faz um trabalho bem-feito, sem pressa nenhuma de terminar, e ela arqueou contra os dedos dele e disse o nome dele pela primeira vez desde a escada, uma vez só, como quem assina um documento.
A respiração dos dois ocupou o lugar da música. E quando o prazer veio, veio junto com a chuva no vidro da janela, com o abajur aceso, com as máscaras caídas no chão de madeira, viradas para cima, as duas, olhando para o teto como quem perdeu o emprego.
Depois do baile
Você prestou atenção ou só olhou as máscaras?
Cinco perguntas sobre Helena, Renato e a noite no casarão do Bom Retiro. Se errar tudo, ao menos foi por dançar fora do tempo.
1. Por que Helena demorou a abrir o envelope do convite?
2. O que tornava a máscara de Renato diferente das outras na festa?
3. Segundo Renato, qual é a diferença entre disfarce e fantasia?
4. Durante a dança, o que a hesitação de Renato revelou?
5. O que Helena descobriu ao tirar a máscara de Renato, e o que ele fez com a máscara dela no final?
Depois, deitada sobre o peito dele, Helena olhou para as máscaras no chão e pensou em dizer algo. Que tinha sido inesperado. Que talvez quisesse vê-lo de novo, sem verniz, sem festa, sem as mãos de luvas da entrada. Pensou bastante no que dizer.
Não disse nada.
Renato, porém, estendeu o braço, pegou a máscara de venetiana do chão, e a pôs na mesa ao lado da dela, do lado de dentro, não sobre. Como quem guarda uma coisa que ainda vai precisar de novo.
Ela viu o gesto. Entendeu o gesto. Sorriu para o escuro.
Conto erótico: no comércio usando a máscara e o desejo
Conto erótico: O boquete e como aprendi a te devorarConto erótico enviado por Marina Sanches, de São Paulo, SP.
Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)
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