
Conto erótico: O boquete e como aprendi a te devorar

Existe uma fome que só a boca entende. Aprendi isso em Recife, num apartamento de terceiro andar onde o calor colava nas paredes e o ventilador de teto girava devagar, cansado, como um pássaro que desistiu de voar.
Conheci Tomás numa livraria da Rua do Imperador. Ele folheava um volume de poesia com a paciência de quem lê para não dormir, e trazia um anel de prata pendurado num cordão sobre o peito, uma coisa que ele girava entre os dedos sem perceber. Fiquei olhando mais do que devia. Quando ele levantou os olhos e sorriu, entendi que já estava perdida.
Levamos três semanas para chegar ao apartamento dele. Três semanas de conversas que começavam leves e terminavam com a voz mais baixa, de mãos que se roçavam por acaso nas esquinas e de despedidas demoradas demais na porta do carro. O desejo tem esse requinte de crueldade. Ele se alimenta da espera.
Na primeira vez que entrei ali, vi o pote de mel. Ficava na janela da cozinha, um vidro grosso com tampa de latão, e a luz do fim da tarde atravessava o âmbar deixando uma mancha dourada no azulejo branco. Perguntei por que um pote tão grande para um homem que morava só.
"Para o café da manhã", ele respondeu.
Mentira. Eu senti a mentira do jeito que a gente sente quando a boca de alguém diz uma coisa e o corpo diz outra.
Naquela noite não houve mais do que beijos. Mas que beijos. Ele me encostou na parede da sala e me beijou como se estivesse com fome de meses, a boca quente, o hálito com gosto de café, uma mão na minha nuca e a outra deslizando por dentro da minha blusa, subindo pelas costas, contando vértebra por vértebra. Eu gemia contra a boca dele e ele sorria no meio do beijo, esse sorriso que os homens fazem quando descobrem que a mulher também quer. Fui embora com o corpo aceso e a calcinha molhada, dirigindo mal, errando o caminho de casa.
Na segunda vez, subi a escada com uma decisão que me assustava. Já não era curiosidade. Era fome.
Ele abriu a porta com a camisa aberta e o anel de prata brilhando no peito. A luz estava baixa, o pote de mel continuava na janela, e naquela noite a mancha dourada no azulejo parecia um convite que só eu sabia ler.
"Você demorou", ele disse.
"Você também."
Nos beijamos de pé e fui empurrando o corpo dele até o quarto, sem paciência para cerimônia. Tirei a camisa dele. Ele tinha o torso de quem trabalha e não de quem malha, uma coisa sólida e morena, com o cordão e o anel descansando sobre o peito. Passei a boca pelo pescoço, pelo ombro, mordendo de leve a curva onde o músculo se encontra com o osso, e ele respirou fundo, uma vez, longo, como quem guarda ar para o que vem depois.
Ajoelhei.
Aqui vale uma confissão. Eu sempre gostei de fazer, mas nunca tinha entendido direito. Fazia como quem cumpre uma tarefa, com técnica e com pressa, querendo chegar logo ao fim. Naquela noite foi diferente porque eu não estava com pressa de nada.
Desabotoei a calça dele devagar, olhando nos olhos dele enquanto fazia isso, e a respiração de Tomás mudou de ritmo. Ele já estava duro, e quando o libertei da cueca ele gemeu, um som baixo, quase surpreso, como se o próprio corpo o tivesse traído. Olhei para aquilo como quem olha um objeto precioso e perigoso ao mesmo tempo.
Comecei pela ponta. Só a língua, um círculo lento, o gosto salgado dele na minha boca, o cheiro de pele limpa e de desejo. Ele levou a mão ao meu cabelo e não apertou, apenas descansou ali, como quem se segura para não cair de um lugar alto.
Então abri a boca e o recebi inteiro.
Há um momento em que o mundo some. Você deixa de pensar em horário, em conta, em nome. Existe só a boca, o calor, o ritmo. Eu subia e descia devagar, depois rápido, depois devagar outra vez, porque descobri que o ritmo é uma forma de conversa e que o corpo dele respondia a cada mudança como uma frase respondida. Quando eu parava, ele reclamava com um gemido. Quando eu apertava o passo, os dedos dele se fechavam no meu cabelo. A gente estava falando, e a conversa era boa.
Ele começou a repetir meu nome. Marina. Marina. Como se rezasse.
Foi aí que o mel me veio à cabeça. Parei.
"O que foi?", ele perguntou, ofegante.
Conto erótico: Laços de confiança no feticheFui até a cozinha de joelhos, tanta era a minha entrega, e peguei o pote na janela. Ele riu, uma risada rouca de quem já tinha entendido tudo.
Destampi o vidro. Meti dois dedos e tirei um pouco daquilo, dourado, espesso, escorrendo lento. Passei primeiro nos lábios dele, e ele me puxou para um beijo doce. Depois desci e espalhei o mel por ele, pela extensão inteira, devagar, sentindo o corpo de Tomás estremecer com o contraste do calor e do frio, o ventre dele tremendo, as coxas endurecidas.
E voltei a beber. O gosto era outro agora. O mel se misturava com o sal dele, e cada passada de língua era ao mesmo tempo doce e viva, e ele levou as duas mãos ao meu cabelo e apertou de verdade, sem medo, me guiando num ritmo que era dele mas que eu aprendia rápido, porque a boca aprende, e aprende com uma facilidade que assusta.
Ele avisou entre dentes, num sussurro apertado. E eu não parei. Senti ele se derramar, quente, e engoli sem pressa, sem levantar a cabeça, até que o corpo todo dele relaxasse e a mão no meu cabelo ficasse leve outra vez.
Fiquei ali, ajoelhada, o queixo brilhando, e olhei para cima. Ele estava com os olhos fechados e a cabeça jogada para trás, o anel de prata subindo e descendo no peito com a respiração. Nunca um homem me pareceu tão bonito.
"Você mentiu sobre o mel", eu disse.
Ele abriu um olho. "Como assim?"
"Ninguém compra um pote desse tamanho para o café da manhã."
Teste de leitura
Você leu ou só passou os olhos?
Cinco perguntas sobre o conto do Recife. Sem enrolação, sem piedade.
1. Onde a narradora conheceu Tomás?
2. Quanto tempo os dois levaram até o apartamento?
3. O que a narradora notou no peito de Tomás?
4. O que ficava na janela da cozinha, sob a luz do fim da tarde?
5. O que aconteceu na primeira noite no apartamento?
Ele riu, me puxou para o chão com ele e ficamos os dois ali, suados, sobre o azulejo frio da cozinha, rindo como dois adolescentes que acabaram de inventar uma coisa nova.
Aprendi, naquela noite, que dar prazer é uma forma de poder e de entrega ao mesmo tempo. A boca sabe mais do que a gente imagina. E o corpo de quem a gente deseja tem uma gramática inteira, feita para ser lida devagar, sem pressa, com a língua.
Conto erótico enviado por Marina Salles
Conto erótico: Laços de confiança no fetiche
Conto erótico: Um encontro de submissão e prazerConteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)
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