Conto erótico: Menage em São Paulo

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A luz da tarde caía enviesada pela persiana, desenhando listras no chão de madeira do apartamento na Rua Augusta. Eu estava sentada no sofá, com um livro aberto no colo que não conseguia ler. Fazia semanas que aquele horário, entre quatro e seis, tinha se tornado uma espécie de ritual. Não combinávamos nada. Ninguém dizia "te espero". Mas os dois chegavam.

Eles se conheciam de um jeito que eu não entendia completamente. Não era amizade de infância, nem sociedade de negócios. Havia algo entre eles que oscilava entre a cumplicidade e uma estranha competição silenciosa. Ela me olhava como quem sabe um segredo. Ele, como quem finge não saber.

Naquele dia, o barulho da chave na fechadura me pegou antes de qualquer preparo. Ela entrou primeiro, o cabelo preso de qualquer jeito, um vestido amarelo que parecia ter sido escolhido com pressa. Não me cumprimentou com palavras. Deixou a bolsa cair na poltrona e veio até mim, sentou-se no braço do sofá, tão perto que o cheiro de sabonete e cidade invadiu tudo.

Ele demorou mais alguns minutos. Quando entrou, olhou para nós duas na mesma cena e alguma coisa lhe atravessou o rosto, algo que ele tentou disfarçar com um sorriso torto. Foi até a cozinha, abriu a geladeira, perguntou se queríamos água. A pergunta era um pretexto. A voz dele, sempre um pouco rouca no fim do dia, denunciava que aquele encontro não seria como os outros.

A cidade continuava lá fora, os carros, as buzinas, a vida correndo. Aqui dentro, o tempo parecia ter outra textura. Ela passou a mão pelo meu braço, distraidamente, como quem acaricia um gato sem pensar. Eu senti o peso daquela mão. Ela sabia o que fazia. Eu também sabia. O jogo era esse: ninguém dizia nada que comprometesse, mas todos se moviam com a precisão de quem já ensaiou.

Ele voltou com os copos, colocou-os na mesa de centro, sentou-se na outra ponta. Havia um silêncio que não era vazio, era cheio de coisas não ditas. Ele olhou para ela, depois para mim. A pergunta estava nos olhos dele, e eu percebi que ela também a viu. Ela sorriu de lado, aquele sorriso que eu tinha aprendido a reconhecer como um sinal de que estava disposta a ir mais longe.

Eu deveria ter sentido medo. Não senti. Havia uma curiosidade ali, uma vontade de saber até onde aquilo podia ir. E havia também uma espécie de lealdade estranha entre nós três, como se aquele momento fosse uma construção que só fazia sentido com a presença de todos.

Ele se aproximou primeiro. Não dela, de mim. Ficou ao meu lado, a mão no encosto do sofá, os dedos quase tocando meu ombro. Ela continuou no braço da poltrona, observando, e percebi que a observação dela era uma forma de participação. O olhar dela sobre nós dois era quase físico.

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O beijo dele foi lento, quase uma pergunta. Respondi com o corpo antes da cabeça. Quando me afastei, ela estava mais perto, sentada no chão agora, o queixo apoiado no joelho, os olhos brilhando de um jeito que eu não sabia interpretar. Prazer? Inveja? Expectativa?

O que aconteceu depois não foi uma sequência organizada. Foi uma espécie de conversa sem palavras, onde cada um cedia um pouco para que o outro avançasse. Em algum momento, as mãos dela encontraram as minhas, e o toque era diferente do toque dele. Mais suave, mais calculado. Ele ficou para trás, observando, e eu percebi que aquele era o lugar dele naquele instante. A cidade continuava lá fora, e eu me lembro de pensar, de forma absurda, se alguém na rua poderia imaginar o que acontecia naquele apartamento.

Não havia pressa. Havia uma espécie de coreografia que se construía no momento, feita de pausas, de olhares que se cruzavam e se desviavam, de respirações que se encontravam. Em algum ponto, o controle passou de mão em mão sem que ninguém tivesse pedido. Ela conduziu por um tempo. Depois ele. Depois eu. A sensação era de estar em um lugar onde as regras usuais não valiam, e isso era ao mesmo tempo libertador e assustador.

Quando tudo terminou, o silêncio voltou. Mas era outro silêncio. Menos carregado, mais espesso. Ela se levantou primeiro, foi até a janela, abriu a persiana completamente. A luz invadiu o quarto e eu vi os dois com uma clareza nova. Ele estava sentado na beirada do sofá, a camisa amassada, o cabelo desfeito. Ela tinha uma marca vermelha no ombro que eu não sabia se era minha ou dele.

Ninguém falou sobre o que tinha acontecido. Ela pegou a bolsa, disse que precisava ir, beijou minha testa e a bochecha dele. Ele saiu logo depois, com um aceno de cabeça e um sorriso que não chegou aos olhos. Fiquei sozinha no apartamento, com os copos pela metade e o livro ainda aberto na mesma página.

Às vezes me pego pensando no que aquele encontro significou de verdade. Não foi apenas o que aconteceu. Foi o que ficou. A sensação de ter sido vista por dois pares de olhos ao mesmo tempo, e de ter visto também. A cidade continua lá fora, os carros, as buzinas. Mas alguma coisa naquele apartamento mudou de lugar naquela tarde, e até hoje não sei dizer exatamente o quê.

Conto erótico enviado por Helena Fontes

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Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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