Conto erótico: no comércio usando a máscara e o desejo

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O ateliê ficava nos fundos de uma loja de mármores no centro de Ouro Preto, o que sempre pareceu a Beatriz uma ironia delicada. Escultoras de pedra, escultoras de gesso, e ela ali no meio, restaurando caras de santos que ninguém mais olhava.

A encomenda chegou numa terça de chuva. Uma máscara de porcelana, veneziana, do tipo que cobre só a metade superior do rosto, com acabamento em prata desgastada e um cabelinho rachado na têmpora esquerda. Sem bilhete. Só o objeto, uma caixa forrada de veludo gasto e um cartão com um número de telefone e a frase "quero vê-la como era antes".

Beatriz detestava encomendas anônimas. Prendeu o cabelo, acendeu a lâmpada da bancada e virou a máscara entre os dedos. Por dentro, no canto, alguém havia escrito a lápis um nome quase apagado: Lúcia.

Trabalhou nela por três dias antes de ligar.

"Está pronta?" A voz do outro lado era grave, com uma hesitação no fim de cada frase, como se o homem estivesse escolhendo as palavras em outra língua antes de dizê-las.

"Quase. Preciso saber como era a pintura original. Alguém repintou por cima, e mal."

Um silêncio comprido demais.

"Eu sei como era", disse ele. "Foi minha mão."

Beatriz não perguntou. Anotou um endereço na Rua São José, uma casa amarela de esquadrias brancas, e marcou para sexta à noite, porque durante o dia ela não conseguia sair do ateliê, e porque algum instinto teimoso a avisou que era melhor receber esse cliente em particular com a noite já firmada.

A casa era menor do que ela imaginou. Um homem de uns cinquenta e poucos abriu a porta segurando um copo de vinho pela base, sem oferecer outro, o que de alguma forma a deixou mais à vontade. Rafael, ele se apresentou. A mão dele era quente e seca, com tinta azul acumulada nas_valas das unhas.

"Foi você quem repintou?" ela perguntou, ainda na porta.

"Fui eu quem estragou." Ele deu um meio sorriso e se afastou para deixá-la passar. "Coisas que a gente faz aos vinte anos e leva trinta pra consertar."

A sala tinha paredes forradas de quadros pequenos, nenhum acima de um palmo, todos de rostos. Beatriz notou que nenhum rosto tinha olhos completos. Ou estavam de perfil, ou debruçados, ou cobertos por sombra. Todo esse tempo olhando para você, disse a voz dela, a dele não, e ela corrigiu o pensamento com uma ironia íntima: interessante que um homem que pinta rostos esconda todos os olhares.

A máscara estava sobre a mesa da cozinha quando ela tirou o pano de linho da bolsa. Rafael se aproximou mais do que o necessário. Ela sentiu o calor dele no braço, parado ali, sem tocá-la, e percebeu que estava prendendo a respiração de um jeito boba.

"A pintura original era azul", ele disse. "Um azul mais escuro que este. Eu misturei."

"Misturou com o quê?"

"Com o que sobrava de um outro trabalho." Ele afastou o rosto e foi buscar algo numa gaveta. Uma foto em preto e branco, uma mulher jovem segurando a máscara contra o peito, rindo, os olhos fechados.

"Lúcia", Beatriz disse, sem pensar.

Ele não perguntou como ela sabia. Voltou com dois copos agora, o segundo de vinho que antes não existia, e essa mudança de decisão, esse pequeno recuo do homem que minutos atrás controlava a porta e a conversa, mexeu com ela mais do que qualquer elogio teria mexido.

"Minha mulher", ele disse. "Faleceu há quatro anos. A máscara era dela. Compramos em Veneza numas férias em que choveu o tempo todo e a gente inventou todo tipo de bobagem pra não sair do hotel." Ele riu baixo, um riso que doeu na garganta e não chegou à boca. "No ano passado eu decidi repintar. Achei que ia sentir menos falta. Sentei com ela na mesa da cozinha, essa mesma mesa, e quando terminei percebi que tinha apagado a única coisa que ainda tinha a cor de Lúcia."

Beatrix olhou para a máscara na sua frente, o azul medíocre por cima do verdadeiro, e entendeu a encomenda de outro jeito. Ele não queria um restauro. Ele queria que alguém pusesse a mão de volta no azul original com a paciência que ele não tinha tido consigo mesmo.

"Preciso de algumas semanas", ela disse. "Talvez um mês."

"Tanto assim?"

"Porcelana pintada é pele. Se você apressa, ela nunca fica igual."

Rafael olhou para ela nessa altura, de verdade, pela primeira vez desde a porta. Não era um olhar de avaliação. Era um olhar de quem acaba de reconhecer algo que não procurava.

"A Lúcia dizia isso das coisas boas em geral", ele respondeu.

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Ela pegou a máscara, embrulhou no linho, e ele a acompanhou até a rua. Na despedida, em vez de apertar a mão dela, Rafael segurou os dedos dela por um segundo a mais dentro dos seus, os dedos sujos de tinta azul, e disse, muito baixo: "Você também esconde alguma coisa embaixo de camadas, não é?"

Beatriz não respondeu. Deu boanoite e desceu a ladeira ouvindo os próprios passos, o coração batendo num lugar que não era exatamente o peito, e com a nítida, inoportuna consciência de que as semanas seguintes iam ser muito compridas.

E foram. Na primeira sexta ele ligou com uma desculpa técnica sobre o verniz. Na segunda, apareceu no ateliê com um pote de tinta azul dizendo que tinha achado o tom numa loja de fundo de quintal em Sabará, e ficou ali na bancada dela por duas horas, calado a maior parte do tempo, cutucando cacos de santos quebrados, observando as mãos dela. Beatriz trabalhava com a boca seca. Sabia que ele estava olhando. Escolheu não levantar a cabeça, e essa escolha, essa pequena recusa, era a coisa mais parecida com um convite que ela tinha feito em anos.

Na terceira sexta, a máscara estava pronta. O azul voltou. Um azul fundo, meio noturno, com o brilho gordo de porcelana antiga.

"Está idêntica", Rafael disse. E a voz falhou na última sílaba.

"Está dela", Beatriz corrigiu.

Ele levantou a máscara devagar. Em vez de guardá-la na caixa de veludo, virou-a para o próprio rosto e a segurou ali, na altura dos olhos, sem colocá-la, o braço esticado, como quem testa uma lembrança. Por trás da porcelana, os olhos dele encontraram os dela, enfiados num rosto que de repente tinha algo de adolescente.

"Lúcia me disse uma vez que máscara boa é a que deixa ver mais, não menos." Ele baixou o braço. A mão tremia um pouco. "Sinto muito. Não devia ter dito isso."

"Deveria sim."

O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era denso, cheio, um silêncio de duas pessoas paradas na beira de uma frase maior que ainda não sabiam formar. Rafael pousou a máscara na bancada, entre os dois, com o cuidado de quem põe um recém-nascido no berço. E aproximou o rosto do dela na medida exata de um homem esperando permissão, sem pedir, sem adiantar um milímetro que não lhe fosse dado.

Beatriz fechou a distância que faltava. Foi um beijo desajeitado no começo, desses em que os narizes atrapalham e ninguém ri a tempo, e depois encaixou com uma naturalidade quase vexatória, a mão dele deslizando pelo cabelo dela com a delicadeza com que segurava a porcelana, a mão dela na nuca dele sentindo a respiração engrossar. Ele tinha o gosto do vinho e um cheiro de tinta a óleo e de alguma coisa mais velha que cheiro, alguma coisa que doía, e ela bebeu tudo isso sem pressa.

Naquela noite, na casa da Rua São José, entre os quadros de rostos sem olhos, eles aprenderam um do outro com uma lentidão que não era timidez e sim cerimônia. Havia o peso de Lúcia no quarto, e os dois sabiam, e nenhum dos dois tentou fingir que não. Ele parava às vezes, simplesmente parava, e ficava olhando para Beatriz com um espanto antigo, e ela entendia que ele não estava comparando, estava se despedindo de um jeito de estar sozinho. Quando ela tirou a blusa, ele disse "deixa a luz acesa", e não foi pedido de vaidade, foi o oposto: queria ver, queria acertar, queria não errar por dentro do escuro. As mãos dele sobre a pele dela eram mãos de pintor, mãos que sabem esperar a camada secar.

Depois, deitados, ele pegou a máscara da mesa de cabeceira e a passou para ela.

"Fica com ela."

"Rafael."

"Ela não é mais minha. Foi minha quando eu precisava não olhar pra mim mesmo. Agora..." Ele virou o rosto no travesseiro, os olhos cansados e claros. "Agora eu prefiro olhar. E você tem mania de olhar as coisas por dentro. Vai cuidar bem dela."

Você prestou atenção, ou só veio pelo final?

Cinco perguntas sobre "A máscara e o desejo". Responda com honestidade, coisa que os personagens aprenderam só na terceira sexta.

1. Por que Rafael repintou a máscara azul de Lúcia?

2. Onde Beatriz descobriu o nome "Lúcia"?

3. Segundo Lúcia, citada por Rafael, uma máscara boa é aquela que...

4. Quando Beatriz disse que precisava de semanas para o restauro, ela comparou a porcelana pintada a quê?

5. Quando Beatriz tirou a blusa, o que Rafael pediu e por quê?

Você ainda deixou algumas perguntas sem resposta. Vamos lá, responda todas. Nem Rafael demorou tanto.

Beatriz levou a máscara para o ateliê no dia seguinte e pendurou a caixa de veludo num prego na parede, entre dois santos sem queixo. Clientes perguntam às vezes o que é. Ela diz que é uma peça que ela restaurou e que o dono não quis mais de volta. É verdade, e não é.

Porque em certas sextas à noite a luz da bancada ainda fica acesa até tarde, e há uma taça de vinho que se esvazia mais devagar do que se esvaziaria sozinha, e um homem de mãos azuis que chega sem avisar e vai embora sem se despedir direito, e a máscara azul-escura, pendurada no seu canto, olhando os dois com a paciência das coisas que já viram de tudo e não contam nada pra ninguém.

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Conto erótico enviado por Marta Salgueiro, de Ouro Preto, Minas Gerais.

Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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