Conto erótico: O quarto ao lado

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O apartamento na Beira-Mar tinha um problema de acústica que só descobri na segunda noite. A parede do quarto de hóspedes dividia espaço com o quarto do casal, e as vozes atravessavam o gesso com uma clareza que me deixou sem saber onde enfiar a cara. Era um apartamento emprestado, de um amigo que viajara para o exterior, e eu estava ali para resolver pendências de trabalho que se arrastavam havia semanas. Fortaleza me recebeu com aquele calor úmido que gruda na pele e a promessa de dias longos demais.

Na terceira noite, ouvi a conversa. Não era briga. Era pior.

"Você não precisa fazer isso se não quiser", disse a voz masculina, grave, sem pressa.

"Eu quero. Mas quero que você fique. Olhando."

A voz feminina tinha um timbre que me fez parar de mexer no laptop. Não havia sedução calculada ali. Havia uma franqueza que soava quase casual, como se estivessem discutindo o jantar. Depois veio o silêncio, e depois um som de tecido escorregando, e eu fechei o computador e fiquei olhando para o teto como um adolescente.

Eles se chamavam Rafael e Marina. Conheci na manhã seguinte, na cozinha. Ele fazia café com uma calma de quem já aceitou que a vida é feita de pequenas cerimônias. Ela lia algo no celular, o cabelo ainda molhado, os pés descalços no piso frio. Me ofereceram café antes que eu me apresentasse direito.

"Ouviu a gente ontem?", perguntou Marina, sem levantar os olhos da tela.

O café quase desceu pelo lugar errado. Rafael riu, um riso curto, e empurrou a xícara na minha direção.

"As paredes são finas", ele disse. "A gente já sabe. Não é a primeira vez que alguém comenta."

Eu não soube o que responder. Marina levantou o rosto, me avaliou por dois segundos, e voltou ao celular. Não havia constrangimento nela. Havia uma espécie de paciência, como se esperasse que eu dissesse algo. Não disse.

Os dias seguintes foram feitos de encontros pequenos. Rafael saía para trabalhar cedo. Marina ficava. Descobri que ela era fotógrafa, que estava em Fortaleza para um projeto sobre o litoral, que passava horas na varanda esperando a luz certa. Eu trabalhava na mesa da sala, e ela circulava pela casa com uma liberdade que me incomodava de um jeito que eu não queria nomear.

Na quinta noite, Rafael me chamou para beber na varanda. Marina tinha saído para jantar com uma amiga. A conversa foi fácil, dessas que começam em trivialidades e terminam em lugares estranhos. Ele falou do casamento. Falou de como, depois de sete anos, tinham aprendido a dizer o que queriam sem rodeios.

"Ela gosta de ser vista", ele disse, olhando o mar escuro. "Não é exibicionismo. É outra coisa. É como se, quando alguém olha, ela se lembrasse de que existe."

Fiquei quieto. Ele me olhou de lado.

"Você olha. Eu percebo."

Não era acusação. Era constatação. E naquela constatação havia uma porta entreaberta que eu não sabia se deveria atravessar.

Marina voltou perto da meia-noite. Eu estava no corredor, a caminho do quarto. Ela parou a poucos passos, o vestido amassado, o batom já quase todo embora.

"Rafael te contou?", perguntou.

"Contou o quê?"

Ela sorriu. Um sorriso cansado, mas sincero.

"Que a gente não tem pressa. Que a gente gosta de conversar antes."

Foi a vez dela de passar por mim e entrar no quarto. A porta ficou entreaberta. Eu fiquei no corredor por um tempo que não sei medir.

No sábado, Rafael sugeriu que eu ficasse para o jantar. Cozinhei com eles, ou melhor, fiquei encostado na bancada enquanto Marina cortava legumes e Rafael mexia a panela. Havia vinho, havia música baixa, havia aquela tensão que não precisa de nome para existir. Em algum momento, Marina encostou o braço no meu ao alcançar uma tábua. Não pediu desculpa. Eu não me afastei.

Depois do jantar, ficamos na sala. A conversa foi ficando mais lenta, mais cheia de pausas. Rafael se levantou para buscar mais vinho e, quando voltou, sentou-se no chão, encostado no sofá, entre as pernas de Marina. Ela passou a mão no cabelo dele, um gesto automático, de intimidade antiga. Eu os observava e sentia o ar mais denso.

"Você fica desconfortável?", perguntou Marina, sem me olhar.

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"Depende do que você quer dizer com desconfortável."

Ela riu. "Boa resposta."

Rafael levantou o rosto. "A gente não faz nada que você não queira. E se você quiser ir para o quarto agora, a gente não vai falar sobre isso amanhã. Vai ficar tudo igual."

Havia algo na voz dele que era quase ternura. E era isso que tornava tudo mais difícil. Se fosse só desejo, eu saberia o que fazer. Mas era confiança. Era cuidado. Era a sensação de que qualquer coisa que acontecesse ali seria tratada com seriedade.

Não fui para o quarto.

Marina se inclinou e beijou Rafael. Foi um beijo sem pressa, desses que parecem conversa. Eu fiquei onde estava, o copo de vinho esquecido na mão. Quando se separaram, ela olhou para mim.

"Você pode chegar mais perto. Se quiser."

Cheguei. Sentei no chão, ao lado de Rafael, e ela deslizou do sofá para o chão também, ficando de joelhos entre nós dois. A luz da sala era baixa, amarelada, e o barulho do mar chegava de longe. Ela me beijou primeiro. Foi um beijo que começou devagar e terminou com a mão dela no meu pescoço, me segurando como se eu pudesse fugir. Não fugi. Rafael ficou olhando, e quando ela se virou para ele, eu entendi que aquele olhar dele não era de quem assistia. Era de quem também estava sendo beijado, de algum jeito.

A noite não teve pressa. Houve hesitações, houve risos nervosos, houve um momento em que eu perguntei se estava tudo bem, e Marina respondeu que sim, com uma paciência que me fez sentir bobo. Houve pausas em que ninguém falou nada, e o silêncio não era vazio. Havia a mão de Rafael no meu ombro, havia o corpo de Marina contra o meu, havia a sensação estranha de estar no centro de uma coisa que não era sobre mim, mas que me incluía de um jeito que eu não sabia explicar.

Em algum momento, tudo parou. Não por desconforto, mas por cansaço, por um desses acordos silenciosos que as pessoas fazem quando percebem que já chegaram onde precisavam chegar. Ficamos os três no chão da sala, meio vestidos, meio despidos, e ninguém disse nada por um bom tempo. Marina adormeceu primeiro, encostada em Rafael. Ele me olhou por cima da cabeça dela.

"Você vai ficar amanhã?", perguntou.

"Vou."

Não era sobre a noite. Era sobre o café da manhã. Sobre acordar e não fingir que nada tinha acontecido. Sobre a possibilidade de continuar.

No domingo, fizemos café juntos. Ninguém tocou no assunto. Mas quando Marina me passou a xícara, seus dedos ficaram nos meus um segundo a mais. E Rafael, ao passar por trás de mim para pegar o açúcar, encostou a mão nas minhas costas, breve, quase distraído. Eram gestos pequenos. Eram a continuação de uma conversa que tinha começado muito antes de eu chegar.

Voltei para São Paulo na terça. No avião, olhei pela janela e pensei na acústica do apartamento. Pensei que talvez a parede fina não fosse um defeito. Talvez fosse um convite que eu não soube ler a tempo. Ou talvez fosse só uma parede, e eu estava inventando histórias para não admitir que tinha medo de ter gostado.

Quiz: O quarto ao lado

Teste sua atenção aos detalhes, às hesitações e ao que ficou por dizer.

1. O que o narrador descobre na segunda noite no apartamento?

2. Como Marina reage quando percebe que o narrador ouviu a conversa?

3. O que Rafael diz ao narrador na varanda, na quinta noite?

4. Qual é a condição que Rafael estabelece antes de qualquer coisa acontecer?

5. O que o narrador faz no domingo, depois da noite na sala?

Nunca mais falei com os dois. Não por briga. Por acordo tácito, desses que a gente faz sem combinar. Mas de vez em quando, quando o calor aperta e eu lembro do cheiro de maresia na varanda, penso em Marina perguntando se eu fico desconfortável. E na minha resposta, que não respondia nada. Às vezes a gente só precisa de alguém que faça a pergunta certa e espere, sem pressa, até a resposta aparecer.

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Conto erótico enviado por Helena Vasconcelos, de Belo Horizonte.

Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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