Conto erótico: A casa da rua vazia

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O telefone tocou às onze e quarenta e três da noite, horário em que eu já tinha desistido de esperar qualquer coisa daquele sábado. Era Lívia. A voz dela vinha com aquele arrasto de quem bebeu o suficiente para perder a pressa, mas não o controle.

"Você está em casa?", perguntou.

"Estou."

"Ótimo. Estou subindo."

Ela desligou antes que eu perguntasse qualquer coisa. Cinco minutos depois, a campainha. Lívia na porta com o casaco aberto, um vinho na mão que não era dela, e atrás dela um homem que eu nunca tinha visto. Alto, mãos grandes, uma calma que destoava do jeito dela de ocupar os espaços.

"Esse é o Tomás", ela disse, entrando sem esperar convite. "Ele é arquiteto. E ele sabe ouvir."

Tomás estendeu a mão. Aperto firme, sem pressa. Olhos castanhos que te olhavam como quem já tinha decidido alguma coisa e estava esperando você chegar na mesma conclusão.

Eu conhecia Lívia há três anos. A gente tinha uma história que nunca virou namoro porque nenhum dos dois quis nomear. Ela aparecia, ficava dias, sumia. Eu tinha aprendido a não perguntar. Naquela noite, porém, o jogo mudou de lugar.

"Você não vai perguntar por que eu trouxe ele?", ela disse, sentando no sofá como se a casa fosse dela.

"Você vai me contar quando quiser."

"É por isso que eu gosto de você."

Tomás ficou de pé perto da estante, olhando os livros. Não era timidez. Era alguém que não precisava disputar o centro da sala. Lívia abriu o vinho na cozinha, voltou com três taças e me entregou uma. Os dedos dela demoraram um instante a mais na minha mão.

"Eu ando pensando", ela começou, e a pausa foi longa o bastante para eu sentir o peso do que vinha. "Que a gente fica sempre no mesmo lugar. Eu chego, você abre a porta, a gente se come, eu vou embora. Não estou reclamando."

"Não pareceu reclamação."

"Mas eu queria saber como seria se a porta fosse outra."

Tomás se virou. "Ela está dizendo que quer ver você com outra pessoa. E que quer ver outra pessoa com você. Ao mesmo tempo."

A franqueza dele me desarmou. Não tinha ensaio naquilo. Eu olhei para Lívia, que sustentou meu olhar sem sorrir, e entendi que a proposta era real. Ela tinha bebido, sim, mas estava mais lúcida do que em muitas noites em que eu a vi sóbria.

"Você está propondo o quê, exatamente?", eu perguntei.

"Estou propondo que a gente pare de fingir que a gente se basta", ela disse. "Eu não me basto. Você não se basta. E ele", apontou com a taça, "não tem medo de admitir que também não."

Tomás sentou no braço do sofá, perto dela. "A gente pode conversar a noite toda e não acontecer nada. Também é uma opção."

O jeito como ele disse "também é uma opção" me fez rir. Não era desprezo. Era honestidade de quem não precisava empurrar ninguém para lugar nenhum.

Eu terminei o vinho. Lívia fez o mesmo e ficou me olhando com aquela cara que eu conhecia bem, a de quem já tinha ido embora por dentro e estava só esperando o corpo acompanhar. Só que dessa vez ela não foi embora. Ela se inclinou e me beijou. Devagar, como se estivesse testando se eu ia recuar.

Não recuei.

Quando me afastei, Tomás estava mais perto. Ele não se jogou. Estendeu a mão e tocou meu rosto com as costas dos dedos, um gesto que parecia mais pergunta do que gesto. Eu fechei os olhos. A casa ficou muito silenciosa de repente, o barulho do ventilador no quarto, o latido distante de um cachorro, o vinho ainda na minha língua.

"Eu vou dizer uma coisa", falei, e a voz saiu mais rouca do que eu esperava. "Eu não sei fazer isso pela metade."

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Lívia riu baixo. "Eu sei."

O que aconteceu depois não foi coreografado. Foi uma sequência de escolhas pequenas, cada uma delas uma porta que a gente podia ter deixado fechada. Ela tirou o casaco e ficou de pé no meio da sala, a blusa fina marcando o corpo. Tomás levantou e ficou atrás dela, as mãos nos ombros dela, os olhos em mim. Era uma imagem que eu ia levar comigo por muito tempo, mesmo que tudo tivesse acabado ali.

Não acabou.

Lívia me puxou pela camisa. O beijo dela tinha gosto de vinho e de pressa contida. Tomás se aproximou por trás, a mão dele deslizando pelo braço dela até encontrar a minha, e foi ali, naquele contato de três mãos, que eu senti a coisa mudar de temperatura. Eu tinha medo de uma coisa específica, e era disso: de não saber onde terminava o desejo e começava a vaidade de me sentir desejado por dois. Mas o medo não me paralisou. Só deixou tudo mais nítido.

O quarto. A luz do abajur, que eu deixei acesa porque apagar teria sido esconder. Lívia sentou na beira da cama e me chamou com o dedo. Tomás ficou de pé, encostado na parede, olhando como quem assiste a um filme que já viu e ainda assim quer ver de novo. Não era voyeurismo. Era presença. Ele estava ali do jeito que a gente está quando não tem nada a provar.

"Vem", Lívia disse.

O que eu vou contar agora é o que eu lembro de verdade, e a memória tem dessas coisas de guardar o que importa e inventar o resto. Lembro do peso da perna dela sobre a minha. Lembro da mão de Tomás no meu ombro, me segurando no lugar quando eu quis acelerar. Lembro de Lívia rindo com a boca na minha orelha e dizendo "calma, ele sabe o que está fazendo". Lembro de uma pausa longa em que ninguém falou nada e a gente só respirava, três respirações fora de compasso, e eu pensei que aquilo era a parte mais íntima da noite.

Em algum momento Tomás se aproximou. Não houve disputa. Houve revezamento, houve paciência, houve um cuidado que eu não esperava e que me desarmou mais do que qualquer ousadia. Lívia estava no meio, mas não era rainha de nada. Ela também estava aprendendo. Em certo instante ela me olhou com uma expressão que eu nunca tinha visto nela, uma espécie de susto bom, como quem descobre que ainda tem espaço para ser surpreendida.

Depois, o silêncio. Os três deitados, suados, o lençol embolado no pé da cama. Tomás foi o primeiro a falar.

"Eu preciso ir."

Lívia não pediu que ficasse. Eu também não. Ele se vestiu sem pressa, beijou a testa dela, apertou minha mão de novo. Na porta, disse: "Foi bom conhecer vocês." E saiu.

Lívia ficou. Deitada de barriga para cima, olhando o teto. Eu esperei que ela dissesse alguma coisa, uma explicação, uma despedida, uma promessa. Ela virou a cabeça para mim.

"Você está bem?", perguntou.

"Estou."

"Eu também."

Quiz literário

A casa da rua vazia: quanto você realmente entendeu?

Cinco perguntas sobre desejo, hesitação e aquilo que ninguém disse em voz alta.

1Quem chega à casa do narrador na noite do conto?

2O que Lívia propõe ao narrador, sem rodeios?

3Qual é o medo específico que o narrador admite sentir?

4Como Tomás se comporta durante a noite?

5O que acontece de diferente no fim, em relação aos três anos anteriores?

E dormiu. Pela primeira vez em três anos, ela dormiu na minha cama sem acordar antes do amanhecer. Eu fiquei acordado mais um tempo, ouvindo a respiração dela, pensando em Tomás indo embora naquela rua vazia. Não sabia se ia acontecer de novo. Não sabia se queria. Sabia só que a casa, naquela noite, tinha ficado menos silenciosa do que o normal, e que eu tinha gostado daquilo de um jeito que ainda ia me custar para entender.

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Conto erótico enviado por Renata Sampaio, de Porto Alegre.

Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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