
Conto erótico: Ménage em Belo Horizonte

Eu não era do tipo que aceita convites de última hora. Mas aquele sábado o apartamento estava silencioso demais, e a mensagem do Rafa chegou como quem sabe disso. "Festa pequena. Pouca gente. Vem." Três frases, nada mais. Ele sempre escreveu assim, econômico, como se cada palavra tivesse custo. Talvez por isso eu tenha ido. Gente que escreve pouco geralmente tem muito o que esconder.
O endereço era num prédio antigo da Savassi, those prédios com elevador social separado do de serviço e cheiro de cera no corredor. Guardei o carro duas ruas abaixo. No caminho, pensei em desistir umas três vezes. A terceira foi quando vi, pela janela do terceiro andar, uma luz amarela e baixa, daquelas de quem não quer festa, quer outra coisa.
A camila abriu a porta com uma taça na mão e a blusa de botões torta, um botão fora de casa. Ela riu quando percebe que eu tinha notado.
"Cansou de abotoar", disse, em vez de consertar.
Havia mais umas oito pessoas no começo. Eram doze às onze e duas à meia noite. A matemática das festas é sempre essa, ninguém explica, todos conhecem. Rafa tocava um disco de MPB que eu detestava e que, naquela sala com pouca luz, parecia o disco mais bonito do mundo. Eu bebia devagar. Há uns anos eu bebia rápido, e o devagar é uma aprendizagem que deixa marcas.
A Camila sentou do meu lado no sofá em algum momento entre uma música e outra. Não do meu lado no sentido romântico. Do meu lado no sentido de que o sofá acabava.
"Você é o amigo do jornal", ela disse. Não era pergunta.
"Foi. Já não escrevo mais lá."
"E o que você faz agora?"
"Espero as coisas acontecerem pra ter o que contar."
Ela riu de novo, um riso curto, pela boca fechada, e ficou olhando pra mim um segundo além do confortável. Eu conheço esse segundo. Ele costuma custar caro ou valer muito, e a gente nunca sabe qual dos dois até o fim da noite.
O Rafa veio se sentar do outro lado dela e, sem cerimônia, botou a mão no joelho da Camila. Ela não moveu a perna. Olhou pra ele, depois pra mim, e bebeu o resto da taça num gole só, como quem assina alguma coisa.
"Ele conta a história errada", disse o Rafa, sem tirar a mão. "A do jantar de formatura. Ele nunca conta certo."
"E como é certa?"
"Pergunta pra ele", disse o Rafa. E os dois ficaram me olhando, e o disco trocou de faixa justamente aí, e a sala inteira pareceu combinar com aquilo.
Eu contei. Contei errada também, de propósito, e a Camila percebeu e disse que eu mentia com uma elegância que merecia punição. O Rafa disse que a punição era outro copo de vinho. Eu disse que era melhor pra mim que ela escolhesse a punição. Ela escolheu que eu ficasse até o último hóspede ir embora.
O último hóspede foi embora às duas e quarenta.
Ficamos os três na cozinha, que tinha uma luminária fraca em cima da mesa e um relógio de parede que fazia tic mais alto do que relógio nenhum devia fazer. A Camila lavava as taças sem lavar, só passava o dedo na borda e deixava escorrer. O Rafa cortava uma laranja com faca grande demais, o que não tinha sentido nenhum e tinha todo o sentido.
"Você sabia", disse ela de repente, sem erguer os olhos da taça, "que a gente combinou de te convidar hoje."
Não respondi. A laranja parou de ser cortada.
"Combinamos na terça", disse o Rafa, tranquilo, como quem confirma um endereço. "Ela disse teu nome primeiro. Eu só concordei."
O relógio deu três horas tic. Quatro. Eu devia ter dito alguma coisa espirituosa, era meu ofício, era o que se esperava de mim. Mas entre o ofício e a pessoa há um espaço onde as palavras demoram. E ali, com o cheiro de laranja e o vinho encostando na boca da taça, o espaço era grande.
"Vocês combinaram errado", eu disse afinal. "Deviam ter me convidado na terça."
A Camila pousou a taça virada sobre o pano, com um cuidado de quem termina uma frase. Veio andando devagar por cima da minha hesitação, parou perto, perto do ponto em que a respiração de dois muda o som da cozinha. O Rafa ficou onde estava, encostado na pia, assistindo com a faca ainda na mão e a laranja aberta ao meio, como um homem que já sabe o final do filme e ainda assim gosta de assistir.
Conto erótico: O quarto ao lado"Tá com medo?", ela perguntou. E não era provocação, era um pedido de verdade, dos que a gente faz de madrugada quando já não tem força pra mentir.
"Um pouco."
"Então tá no caminho certo."
Ela beijou devagar, do jeito de quem prova. Depois afastou o rosto uns centímetros, ainda encostada em mim, e olhou pro Rafa. Não era pedido de permissão. Era partilha. Há diferença, e quem nunca aprendeu a diferença não deveria estar numa cozinha às três da manhã.
O Rafa largou a faca no mármore, fez um som seco, e veio.
A noite que veio depois não cabe em narrativa organizada, e eu sou velho demais pra mentir que coube. Lembro de pedaços, e de silêncios principalmente. Da luz amarela apagada no meio, porque a Camila preferia escuro. Da risada involuntária dela quando eu trombei na quina da cama, porque em toda coisa séria há uma quina esperando. Da mão do Rafa no meu ombro, breve, um gesto que não pedia nada e por isso mesmo me desarmou. De aprendizados que não se contam em voz alta nem se prometem em voz baixa.
E lembro do fim, quando já era quase manhã e os três deitávamos no chão da sala porque a cama tinha virado território demais. A Camila dormiu primeiro, de lado, segurando o pulso de um e o tornozelo do outro, porque em toda coisa séria há uma quina, mas há também um inventário de gestos que ninguém planeja.
O Rafa olhou pro teto um tempo e disse, baixo pra não acordá-la:
"Na terça eu tive medo que você não viesse."
"Eu também."
Ele riu. Fechou os olhos.
Você prestou atenção na cozinha de Belo Horizonte?
Cinco perguntas para quem acha que entendeu tudo o que aconteceu depois que o último hóspede foi embora.
1Segundo o narrador, quem teve a ideia de convidá-lo para a noite, e quando isso foi decidido?
2Por que o narrador afirma que foi à festa, apesar de não ser do tipo que aceita convites de última hora?
3Quando o Rafa apoia a mão no joelho da Camila, ela reage de um jeito que diz muito. Qual?
4Ao final, na madrugada no chão da sala, o Rafa confessa algo com a voz baixa. O que ele admite?
5O narrador termina entendendo que a verdadeira noite não foi a noite. O que ele conclui no semáforo da praça?
Você ainda deixou algumas perguntas sem resposta. Vamos lá, responda todas. A cozinha não abre exceções para distraídos.
Fui embora às sete, sem café, porque nenhum dos três era gente de manhã. Desci a Savassi vazia, com o cheiro de laranja ainda na mão, e só no carro, no semáforo da praça, entendi que a festa nunca foi a festa. O convite é que era. E ele tinha sido feito na terça, feito com meu nome dentro, guardado três dias num apartamento de luz amarela, esperando que eu tivesse coragem de ser convidado.
Semáforos de Belo Horizonte são longos. Aproveitei o da praça inteira pra não pensar em nada. É uma habilidade que me custou anos. Naquela manhã, foi a mais útil que eu tinha.
Conto erótico enviado por Helena Vasconcelos, de Belo Horizonte, Minas Gerais.
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