Conto erótico: o peso dos pés dele

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Hoje achei uma meia atrás da poltrona. Sozinha, do avesso, o calcanhar gasto até ficar fino como papel de seda. Não era minha. E foi o suficiente para a manhã inteira se desfazer.

Fiquei um tempo com aquilo na mão antes de decidir o que fazer. Joguei na gaveta. Voltei. Peguei de novo. Passei o polegar no trecho onde o tecido já estava frouxo, e ali, sem que eu tivesse pedido, veio o cheiro de uma casa que já não existe.

Era uma casa de praia emprestada. Chão de madeira clara, o tipo que range em qualquer lugar que a gente pise. Um amigo em comum nos juntou ali por acaso, ele chegou na quinta, dois dias depois de mim, e entrou pela porta dos fundos carregando uma sacola de mercado e um par de sandálias que abandonou logo no primeiro degrau.

Foi pelas sandálias que tudo começou, ou melhor, pelo que veio depois delas. Ele andava descalço pela casa como quem tem intimidade com o mundo. Sem cerimônia, sem olhar para baixo. O pé batia no assoalho com um som cheio, um som que eu comecei a escutar antes de qualquer outra coisa que ele dissesse. Passei a manhã inteira ouvindo aquele barulho se mover de um cômodo para o outro, e fingi que não era nada.

Não era nada, eu dizia para mim mesma. Pé é pé.

Mas eu já estava prestando atenção no tornozelo quando ele se sentava. Na curva fina que fazia ali, no osso que aparecia de leve por baixo da pele. Na planta que se erguia quando ele apoiava o pé na quina do banco. Ele tinha um pé grande, de veias claras, com o arco alto, e havia uma calosidade na base do dedão que me deu uma vontade estranha de tocar. Só isso. Tocar, e depois ir embora.

Na quinta à noite ele cozinhou. Ficou descalço na cozinha, e de vez em quando levantava um pé para coçar a canela com o outro, um equilíbrio de gente que cresceu assim. A luz era amarela e baixa, e eu bebia vinho no balcão olhando para o chão sem disfarce nenhum, achando que ele não notava.

Ele notava. Em algum momento parou de mexer a panela, olhou para os próprios pés e depois para mim, e disse apenas: são bons, né. Sem ponto de interrogação. Como se soubesse.

Eu ri sem graça, e menti um pouco, e disse que nunca tinha pensado nisso. Ele aceitou a mentira com uma calma que me incomodou. Voltou a mexer a panela. O silêncio ficou de pé entre nós, denso, com o cheiro do alho e o barulho da colher no fundo de metal, e eu senti o rosto quente por um motivo desproporcional.

Dormimos em quartos separados. Lembro de ter ficado acordada ouvindo a casa ranger, imaginando os passos dele num corredor que não era o meu, e de ter achado tudo muito ridículo. Uma mulher adulta, com uma vida resolvida, perdendo o sono por causa de um pé.

No sábado fomos à praia cedo. Areia molhada, água fria, ele correndo na beira como um menino grande. Voltamos com os pés sujos e ele parou no jardim para tirar a areia, batendo um pé contra o outro, depois contra o degrau. Ficou um tempo ali, descalço na grama, e eu me aproximei sem plano nenhum e fiz o que vinha querendo fazer desde quinta.

Toquei.

Foi no peito do pé, de leve, com dois dedos. Ele parou tudo. Não se mexeu, não disse nada, e aquele silêncio teve um peso diferente dos outros, teve um peso de coisa decidida. Corri os dedos até o tornozelo, subi pelo tendão, voltei. Ele respirou uma vez, fundo, e foi a única resposta.

Depois disso mudou alguma coisa na ordem das coisas.

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Ele passou a se sentar de um jeito que deixava o pé mais perto. Não era casual, embora quisesse parecer. Deixava a perna esticada na direção da minha cadeira, o calcanhar no chão, os dedos relaxados, e eu tinha que decidir a cada vez se ia olhar ou se ia fingir. Na maioria das vezes olhava. E ele deixava que eu olhasse, com uma paciência que tinha algo de provocação, como se estivesse esperando que eu admitisse em voz alta uma coisa que já era óbvia para os dois.

Mas eu não admitia. Tinha medo, acho, de transformar em palavras e perder a graça. Enquanto ficava só na pele e no pensamento, aquilo era meu, era um segredo confortável. Falar seria entregar. Então eu hesitava, e ele esperava, e o jogo se esticava por dias.

Na segunda, à noite, ele sentou no sofá e esticou as pernas sobre o meu colo. Sem pedir. Só esticou, como quem entrega uma coisa e vê o que a outra faz com ela. Ficamos assim um tempo, a televisão ligada em volume baixo, ninguém vendo nada.

Aí ele tomou o controle de novo, sem pressa. Pegou meu pulso com a mão e levou a minha mão até a sola do pé dele. Não foi um movimento de sedução, foi quase prático, do tipo que não admite recusa. E eu entendi o que ele estava dizendo sem precisar de frase. Ele sabia. Sempre soube.

A sola era quente e um pouco áspera. Passei o polegar pelo arco, ele fechou os olhos, e foi a primeira vez que vi algo parecido com desamparo naquele homem que até então só tinha sido seguro. Achei aquilo melhor do que qualquer outra coisa que já tivesse visto nele. Ele estava entregue por causa da minha mão no pé. Tão simples, tão desproporcional, tão absurdo.

Beijei o peito do pé dele. Sem aviso. Ele abriu os olhos devagar, e o olhar que me deu não era de surpresa, era de reconhecimento. Como se dissesse: enfim.

Depois foi uma coisa que não teve pressa nenhuma. Fiquei ali um tempo longo, cuidando daquele pé como se ele merecesse, subindo pelos dedos, contornando o tornozelo, voltando pela canela. Ele ficou calado quase todo o tempo, e o silêncio não era vazio, era cheio, tinha textura. De vez em quando deixava escapar um som pequeno pela boca, e cada som desses me dava uma sensação de poder que eu não esperava.

Em certo ponto ele puxou o outro pé para perto também, e passou a me oferecer os dois, sem palavra, só com gesto. E eu pensei, no meio daquilo, que havia uma inversão esquisita ali. Ele, tão dono de si, tão inteiro, se rendendo por causa de um detalhe tão banal do próprio corpo. E eu, que tinha começado fingindo indiferença, agora inteiramente concentrada naquilo, esquecendo do resto da casa, do resto da noite, do resto da minha vida.

Não sei dizer quanto tempo durou. Sei que a televisão ficou ligada em algum programa que mudou de assunto sozinho, e que em algum momento a luz da sala amanheceu mais fraca e depois mais clara, e a casa toda ficou em silêncio, menos nós dois.

Depois ele dormiu de pé no chão, de barriga para cima, os pés ainda perto de mim. E eu fiquei olhando o teto com a mão pousada no tornozelo dele, sem entender direito o que tinha acontecido, sem querer entender. Só sabendo que alguma coisa ali tinha se mexido e não voltaria para o lugar.

Na terça ele foi embora. Deixou a meia atrás da poltrona, provavelmente sem querer. Ou talvez não. Nunca perguntei, e ele nunca mencionou, e essa dúvida pequena ficou morando comigo por meses, alimentando uma história que eu não contei para quase ninguém.

E é isso que a meia de hoje reacendeu. Não a noite inteira, não a coisa toda, mas um detalhe específico, quase nada. A primeira vez que ele parou tudo só porque eu toquei o peito do pé dele. Aquele instante de suspensão, antes de qualquer beijo, antes de qualquer palavra, quando os dois ainda podiam recuar e nenhum recuou.

Guardei a meia de novo. Dessa vez na gaveta certa. Talvez um dia eu devolva, talvez não. Talvez ele também tenha guardado algo meu e esteja agora, do outro lado da cidade, com a mão parada no ar por causa de um objeto que não diz nada a ninguém.

Tem coisas que a gente não escolhe sentir. E depois de sentir, não sabe mais como era antes.

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Conto erótico enviado por Marina Vasconcelos

Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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