
Conto erótico: O que o Leão não diz no dia a dia fala na intimidade

A primeira vez que percebi que haveria problema foi quando ela riu.
Não pela risada em si, que era bonita, grave, um pouco rouca. Foi pelo jeito que Marina inclinou a cabeça depois, os olhos presos nos meus um segundo além do necessário. Aquele segundo em que a gente finge não ter visto, mas viu. Estávamos na varanda do apartamento dela, fim de janeiro, o calor de Belo Horizonte descendo pelas paredes como melaço. Ela tinha me chamado para revisar um projeto, dizia. Duas taças de vinho depois, o projeto estava esquecido sobre a mesa, e a conversa tinha derivado para signos, por algum motivo idiota que já não importava.
Leão, ela disse. Você é tão leão que chega a ser engraçado.
Eu não perguntei o que isso significava. Perguntei com o rosto, erguendo uma sobrancelha, e ela respondeu com a mão, um gesto vago que queria dizer tudo e nada.
É o jeito que você ocupa o espaço. Como se o espaço fosse seu por direito. E depois fica aí, quieto, olhando, esperando que o mundo se ajuste.
Já era a terceira vez naquele mês que a gente se via fora do trabalho. A desculpa do projeto tinha sido minha, na semana anterior, quando sugeri que ela trouxesse os arquivos para cá porque o escritório estava insuportável. Funcionou. Funcionou porque ela quis que funcionasse, percebi depois, e essa percepção me incomodou mais do que deveria. Eu não estava acostumado a ser lido. Preferia o contrário.
Ela levantou para pegar mais vinho. Passou perto de mim, e a coxa dela roçou meu joelho. Foi rápido. Foi nada. Foi o suficiente para que o ar da varanda mudasse de textura. Fiquei olhando para o ponto exato do meu joelho onde o contato tinha acontecido, como se houvesse uma marca visível, e não havia, mas eu continuava olhando. Marina voltou, serviu, sentou no chão, encostada na parede, os joelhos dobrados, o vestido subindo dois dedos acima do que era discreto. Não ajustou. Eu não olhei. Olhei. Ela viu que eu olhei.
O silêncio que veio depois não foi vazio. Foi cheio de coisas ditas sem serem ditas. Eu conhecia aquele tipo de silêncio. Costumava ser o prenúncio do que eu fazia de melhor: tomar a frente, decidir, conduzir. Só que ali, naquela varanda, com o calor colando a camisa nas costas, eu não sabia se queria conduzir ou se queria ser conduzido. A dúvida me irritou. Leão não duvida, pensei, e a frase era tão ridícula que quase ri de mim mesmo.
Ela falou primeiro.
Você fica me olhando como se estivesse resolvendo alguma coisa.
Estou.
E resolveu?
Não.
Marina sorriu devagar, o tipo de sorriso que não pede permissão. Deixou a taça no chão, ao lado do pé, e se levantou. Veio na minha direção sem pressa. Parou a meio passo de distância, perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro de vinho e de algo mais, um perfume cítrico, barato, deliciosamente comum. Ficou ali. Não tocou. Não disse nada. Só ficou, esperando que eu decidisse, e naquele instante entendi o que ela tinha dito antes, sobre o espaço, sobre esperar que o mundo se ajuste. Ela estava me dando a chance de ser o que eu sempre fui. E eu não queria.
Puxei-a pelo pulso.
Foi a única coisa que fiz naquele momento: os dedos envolvendo o pulso fino, sem força, só a pergunta. Ela podia ter se soltado. Não se soltou. Deixou que eu a trouxesse para perto até que as pernas dela encostassem nas minhas, e aí foi ela quem decidiu o resto, inclinando-se, a boca perto da minha orelha, a voz baixa, mais grave ainda do que eu lembrava.
Achei que você fosse demorar mais.
Achei que você fosse resistir mais, respondi, e ela riu contra o meu pescoço, e o riso dela vibrou na minha pele como um segundo toque.
O beijo, quando veio, não foi urgente. Foi lento, quase cauteloso, como se ambos estivéssemos verificando uma hipótese antiga. Ela mordeu meu lábio de leve, e eu respondi com a mão na nuca dela, os dedos entrando no cabelo, puxando um pouco, só um pouco, o suficiente para que ela inclinasse a cabeça e me desse o pescoço. Beijei ali, na curva onde o pulso bate visível, e senti a aceleração. Ela estava tão nervosa quanto eu. Isso me acalmou de um jeito estranho, quase terno.
O quarto dela cheirava a livro e a roupa limpa. A cama estava desfeita. Havia um copo com água pela metade na mesinha. Tudo ali dizia que ela não esperava visita, e ao mesmo tempo tudo ali parecia preparado, como se ela tivesse arrumado o cenário para que parecesse espontâneo. Não me importei. Marina tirou o vestido pela cabeça com um gesto rápido, sem cerimônia, e ficou de pé na minha frente, sem esconder nada, os braços ao longo do corpo, o queixo erguido. Um desafio. Um convite. As duas coisas.
Você vai ficar aí olhando? Ela perguntou.
Estou decidindo, eu disse, e ela revirou os olhos, e foi a coisa mais gostosa que eu tinha visto naquela semana inteira.
Conto erótico: Signo de câncer é mais safado do que você imaginaTirei a camisa. Ela veio. Caiu sobre mim com o peso do corpo, os joelhos nos meus quadris, a boca na minha, e por um tempo não houve mais nada que precisasse ser dito. As mãos dela desciam pelo meu peito, contavam as costelas, paravam na cintura, subiam de novo. Eu a segurava pelos quadris, sentindo o calor através do tecido fino da calcinha, e ela se movia devagar, um balanço mínimo, deliberado, que não era para me excitar, era para me testar. Para ver quanto tempo eu aguentava antes de inverter a posição. Aguentava bastante. Surpreendi a mim mesmo.
Foi quando ela parou.
Ficou imóvel sobre mim, o rosto a um palmo do meu, a respiração curta. Olhou nos meus olhos por muito tempo. Tempo demais. O tipo de olhar que desmonta qualquer pose. Eu quis desviar, e não consegui.
Você não é tão leão assim, ela disse.
Não.
Você tem medo de quê?
A pergunta ficou no ar. Eu podia ter mentido. Podia ter sorrido, virado o jogo, retomado o controle com uma frase qualquer. Em vez disso, falei a verdade, o que era raro para mim, e talvez por isso a coisa toda tenha mudado de temperatura naquele momento.
De gostar mais do que você.
Marina não respondeu com palavras. Baixou a cabeça e me beijou no meio do peito, muito devagar, e foi esse gesto, mais do que qualquer outra coisa, que me desarmou completamente. Não havia performance ali. Não havia jogo. Havia duas pessoas com medo, uma em cima da outra, tentando descobrir se o medo era motivo para parar ou para continuar. Continuamos.
O resto aconteceu com uma naturalidade que me assustou. Ela tirou o que sobrava de roupa, eu tirei o que sobrava da minha, e quando finalmente houve contato de pele com pele, sem barreira, sem fingimento, o corpo dela reagiu com um pequeno sob que não era tristeza. Era alívio. Eu reconheci porque senti o mesmo. Entrei devagar, e ela me puxou para mais perto com as pernas, e ficamos assim um instante, sem nos mover, respirando juntos, testando a medida do que estávamos fazendo. Depois ela começou a se mover, e eu deixei que ela conduzisse, porque naquele dia eu não queria ser o leão. Queria ser outra coisa. Qualquer coisa. Queria estar ali, simplesmente, sem ter que decidir nada.
Foi ela quem acelerou o ritmo. Foi ela quem mudou a posição, empurrando meu ombro até eu ficar de costas, subindo em cima com uma determinação que eu não tinha previsto. Foi ela quem disse, quase sem voz, que era assim que ela queria. E eu obedeci, o que para mim era uma novidade, e a novidade era boa. Muito boa. A luz do abajur desenhava sombras no teto, e eu me perdi naquele movimento, no som dos corpos, no cheiro do quarto, na mão dela apoiada no meu peito, os dedos abertos, como se quisesse me segurar no lugar. Como se eu fosse escapar. Não ia escapar. Não queria.
Quando ela gozou, foi em silêncio, os lábios apertados, o corpo inteiro tremendo por cima do meu. Fiquei olhando aquilo como quem assiste a algo raro. Depois fui eu, e ela me segurou, e por um instante os dois ficamos parados, suados, ridículos, felizes de um jeito que nenhum dos dois sabia nomear.
Deitamos de lado, frente a frente. Ela passou o dedo pelo meu peito, distraída.
Então, ela disse. Leão.
Não começa.
É que faz sentido. Você ruge e tal, mas no fim das contas é preguiçoso. Gosta que façam por você.
Ri. Não tinha argumento.
Cuidado, eu disse. Eu mordo.
Ela aproximou o rosto, os olhos brilhando com uma malícia que eu ia demorar meses para esquecer.
Promete?
Não prometi nada. Ficamos ali, no escuro, sem saber ainda o que aquilo era. Talvez nada. Talvez tudo. A verdade é que naquela noite, quando peguei o carro para voltar para casa, percebi que tinha deixado o relógio na mesinha dela, de propósito. Nunca fui bom em ir embora. E ela, pelo jeito, também não.
Conto erótico enviado por Rafael Mesquita, de Belo Horizonte, Minas Gerais.
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