
Conto erótico: Outono de paixões caídas

O ar frio da tarde colava a blusa fina ao corpo de Clara, como se o tecido quisesse lembra-la de que o outono não perdoava. Ela não tinha vindo até a livraria por acaso. Sabia que ele estaria lá, entre as prateleiras de couro escuro, com os dedos longos deslizando sobre os lombos dos livros como se acariciasse segredos. Não era a primeira vez que se esbarravam ali, entre o cheiro de papel velho e o murmúrio das páginas viradas. Mas hoje algo era diferente.
O primeiro toque foi um acidente. Ou não. O cotovelo de Daniel roçou o braço dela enquanto ele estendia a mão para alcançar um volume de poesia francesa. Clara sentiu o calor da pele dele através da manga, uma queimadura breve que a fez prender a respiração. Ele não se desculpou. Não se afastou. Apenas virou a cabeça, devagar, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse quebrar o fio invisível que os unia naquele instante.
Os olhos dele eram de um castanho tão escuro que pareciam absorver a luz da lâmpada amarela sobre a estante. Clara conhecia aquele olhar. Já o tinha sentido em sonhos nos quais acordava com o lençol úmido de suor e o coração batendo descompassado. Mas agora não era um sonho. Agora, o silêncio entre eles era tão denso que ela conseguia ouvi-lo, um zumbido surdo que preenchia o espaço entre as palavras não ditas.
— Você sempre lê poesia às sextas-feiras?
A voz de Daniel era baixa, áspera, como se as palavras tivessem sido arrastadas por uma estrada de cascalho antes de saírem da garganta. Clara não respondeu de imediato. Em vez disso, deixou que os dedos tremessem levemente ao folhear o livro que segurava, um romance gótico cujas páginas pareciam conter mais sombras do que letras. Ela sabia que ele notara o tremor. Sabia que ele notava tudo.
Havia algo de predatório na forma como Daniel se movia. Não era a pressa de um caçador, mas a paciência de quem sabe que a presa já está cercada. Ele deu um passo à frente, e o cheiro de café e madeira que o acompanhava invadiu o espaço dela. Clara recuou instintivamente, mas a prateleira atrás de si a impediu. Não havia para onde fugir.
— Eu não costumo vir aqui.
Mentira. Ela vinha toda semana, sempre na mesma hora, sempre na mesma seção. Esperando. Mas hoje, pela primeira vez, não tinha certeza do que esperava. Se era o toque dele, o som da voz, ou apenas a confirmação de que a atração que sentia não era apenas frutos da sua imaginação solitária.
Daniel sorriu. Não era um sorriso amigável. Era o tipo de sorriso que prometia coisas que não podiam ser nomeadas em voz alta. Os dedos dele, agora, não tocavam mais os livros. Estavam suspensos no ar, a centímetros do ombro dela, como se testassem a temperatura do espaço entre eles.
— Mentira.
A palavra foi um sopro quente contra o pescoço de Clara. Ela não se mexeu. Não respirou. Sentiu apenas o calor se espalhar pela pele, uma onda que começava no ponto onde o hálito dele a tocara e se espalhava, devagar, como tinta na água.
O que veio a seguir não foi um beijo. Não ainda. Foi um jogo de olhares e suspiros, de corpos que se aproximavam e se afastavam em uma dança sem música. Os lábios de Daniel roçaram a orelha dela, e Clara fechou os olhos, não por prazer, mas por medo. Medo de que, se olhasse para ele naquele momento, não conseguiria mais negar o que ambos sabiam: que aquele não era um encontro casual. Que não era o acaso que os tinha colocado ali, entre as sombras das estantes.
— Você sabe o que vai acontecer se a gente sair daqui juntos?
Conto erótico: Ele disse que era o capetinha do futebol, mas era bola fora na camaA pergunta foi um murro no estômago. Clara sabia. Claro que sabia. Mas o conhecimento não tornava a decisão mais fácil. Havia o marido em casa, o jantar que precisava ser preparado, a vida que ela tinha construído com tanto cuidado. E, no entanto, ali estava ela, com as pernas trêmulas e a mente uma neblina de desejo e culpa.
Daniel não esperou pela resposta. Os dedos dele, finalmente, pousaram no ombro dela, um toque leve, quase reverente. Mas era o tipo de toque que queimava. Que marcava.
— Eu não vou te forçar a nada.
Outra mentira. Porque ambos sabiam que a força não vinha dele. Vinha do silêncio. Vinha do jeito como o ar ficava pesado quando eles estavam perto. Vinha da forma como Clara, agora, não conseguia mais se lembrar de uma única razão para dizer não.
Eles saíram da livraria sob a luz dourada do entardecer, que pintava as calçadas com tons de cobre. Não se tocaram. Não falavam. Mas o espaço entre eles era eletrificado, como se o ar mesmo os empurrasse um em direção ao outro. Clara sentia o suor frio nas palmas das mãos, a pulsação acelerada, a voz na cabeça que gritava para ela voltar atrás. Mas os pés seguiam em frente, como se tivessem vontade própria.
No apartamento dele, o cheiro de madeiras escuras e especiarias exóticas a envolveu. Daniel não acendeu as luzes. A penumbra era suficiente. Suficiente para esconder os detalhes, mas não o suficiente para apagar o fogo que queimava nos olhares.
Quando ele, finalmente, a tocou de novo, foi com as pontas dos dedos traçando o contorno do rosto dela, como se quisesse memorizar cada curva, cada sombra. Clara não resistiu. Não tinha mais forças para isso. Deixou que as mãos dele deslizassem pelo pescoço, pelos ombros, até que os corpos se encontraram em um abraço que era mais um desabafo do que um convite.
E então, quando os lábios dele encontraram os dela, não foi com urgência. Foi com uma lentidão torturante, como se cada segundo fosse uma pergunta à qual ela precisava responder com o corpo. Sim. Não. Talvez.
Mais tarde, quando a noite já tinha caído sobre a cidade e as luzes dos postes piscavam como estrelas distantes, Clara se vestiu em silêncio. Daniel a observava da porta, os braços cruzados, o rosto uma máscara de calma. Mas os olhos dele traíam a tempestade por trás.
— Você volta semana que vem?
Ela não respondeu. Não podia. Porque a resposta era sim. E não. E não sabia.
O outono do lado de fora era frio, mas o que queimava por dentro era muito pior.
Conto erótico enviado por Lúcia Varella
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Conto erótico: O desafio do prazerConteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)
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