
Conto erótico: Primavera selvagem

A mão dele encontrou a curva da sua cintura por acaso, num corredor estreito demais para duas pessoas que fingiam não se conhecer. O toque durou menos de um segundo, mas o calor ficou impresso na pele dela como uma marca invisível. Ela prendeu a respiração, sentindo os dedos dele se retraírem rápido demais, como se tivesse encostado em fogo.
A primavera chegara sem aviso, derretendo a última resistência do inverno num torpor úmido que grudava as roupas no corpo. Na varanda do apartamento dele, ela se perguntava como tinha acabado ali. O vinho na mão tremia um pouco, acompanhando o ritmo irregular do próprio coração.
— Você está tensa — ele disse, sem perguntar.
Ela não respondeu. Olhou para a linha do horizonte, onde os prédios se confundiam com o céu alaranjado do entardecer. Lembrava da primeira vez que o vira, meses atrás, naquela livraria empoeirada. O jeito como ele folheava um livro de poesia, os dedos longos traçando as palavras como se lesse em braile. Ela ficara parada, observando, até que ele levantou os olhos e encontrou os dela.
Três segundos. Talvez quatro.
Foi o suficiente para que ela soubesse que algo estava errado — ou talvez certo — na forma como seu corpo reagiu.
— Não deveria ter vindo — ela disse agora, mas a voz saiu mais fraca do que pretendia.
Ele se aproximou, deixando o copo sobre o parapeito. O silêncio entre eles era denso, preenchido apenas pelo canto distante de um pássaro e pelo zumbido da cidade lá embaixo. Ela sentia o peso da presença dele, a forma como ocupava o espaço sem precisar tocá-la.
— Você veio porque quis — ele respondeu, e havia algo na voz dele que a desarmava. Não era arrogância. Era apenas uma certeza tranquila, como se ele lesse nela o que ela mesma tentava esconder.
Ela pensou no marido, em casa, provavelmente assistindo ao jogo com a cerveja na mão. Pensou na rotina previsível, no beijo mecânico de toda noite, na forma como o corpo dela tinha se tornado um território mapeado demais para ainda guardar surpresas. E sentiu vergonha. Não do desejo — isso ela já aceitara — mas da facilidade com que se deixava levar por ele.
O vento quente levantou um fio de cabelo dela, e ele estendeu a mão para afastá-lo do rosto. O gesto era quase paternal, mas o olhar que a acompanhou era tudo menos inocente. Ela desviou o rosto, mas seu corpo inclinou-se ligeiramente em direção a ele, uma traição involuntária.
— O que você quer de mim? — a pergunta escapou antes que pudesse contê-la.
Ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, aproximou-se mais, até que ela pudesse sentir o calor irradiando do corpo dele, o cheiro de madeira e algo mais indefinível que a fazia lembrar de tempestades de verão.
— Quero ver você se desmontar — ele disse, por fim. A voz era baixa, quase um sussurro contra a orelha dela. — Quero ver o que acontece quando você para de se controlar.
Ela fechou os olhos. Lembrou de outra tarde, num café qualquer, quando ele a encontrou por acaso. Ou não tão por acaso. O jeito como ele a observara por cima da xícara, os olhos escuros fixos nela enquanto ela tentava se concentrar no relatório que nem lia. Ela sentira o calor subir pelas bochechas, a respiração ficar mais curta, e soubera que estava perdida.
Agora, na varanda, com a noite começando a cair, ela sentia o mesmo. Mas mais intenso. Mais perigoso.
Fetiche em pés — Guia técnico e seguro— Isso é um jogo para você? — ela perguntou, abrindo os olhos e encarando-o.
Ele sustentou o olhar dela, e pela primeira vez ela viu algo frágil na expressão dele, uma fresta na armadura de segurança.
— Não — ele disse, e a palavra veio carregada de uma sinceridade que a desarmou. — Não é um jogo. É a coisa mais real que me aconteceu em anos.
Ela sentiu o chão sob os pés sumir. Não literalmente, mas a sensação era a mesma — a perda de referência, a vertigem de se ver à beira de algo que não conseguia nomear. O desejo era parte, mas não era só isso. Havia ali uma fome mais antiga, mais profunda, que não se saciava com toques ou palavras.
Ela se virou para encará-lo completamente. A distância entre eles era pequena, pequena demais para qualquer pretensão de neutralidade. Ele não recuou. Ela também não.
— E se eu não souber me desmontar? — ela perguntou, e a pergunta era um convite disfarçado de dúvida.
Ele sorriu, um sorriso lento que transformou todo o rosto dele, suavizando as arestas.
— Então vou te ensinar.
A mão dele encontrou a dela, os dedos entrelaçando-se com os dela num gesto que era ao mesmo tempo firme e incerto, como se ele também estivesse navegando em águas desconhecidas. Ela sentiu o pulso acelerado dele contra o seu, e aquilo a surpreendeu — a prova de que ele não era tão imperturbável quanto parecia.
O beijo, quando veio, não foi o que ela esperava. Foi lento, exploratório, como se ele estivesse aprendendo a geografia da boca dela. Ela sentiu a língua dele traçar o contorno dos lábios, e um arrepio percorreu sua espinha. As mãos dela subiram para o peito dele, tateando o tecido da camisa, sentindo os músculos contraídos sob o algodão.
Mas foi o olhar que a desfez.
Quando ele se afastou, os olhos escuros encontraram os dela, e ela viu ali o reflexo do próprio desejo — cru, desajeitado, impossível de negar. Naquele instante, ela não era esposa, não era profissional, não era nada além de uma mulher prestes a se perder voluntariamente.
— Vamos para dentro — ele disse, e a voz estava rouca.
Ela balançou a cabeça, mas seus pés já se moviam em direção à porta. As mãos dele encontraram a curva das costas dela, e ela sentiu o calor se espalhar como um incêndio controlado. O que viria depois, ela não sabia. Não queria saber. Queria apenas sentir.
A primavera, pensou ela enquanto cruzava a soleira, era mesmo uma estação perigosa. Tudo florescia rápido demais, sem pedir permissão.
Conto erótico enviado por Clara Mendes
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