Conto erótico: A tentação de Juliette a gostosa do bairro

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O ar condicionado do supermercado não dava conta do calor de janeiro. O suor escorria pelas costas de Júlio, grudando a camisa social no corpo, enquanto ele fingia interesse nas prateleiras de molhos importados. Não era por eles que estava ali. Era por ela.

Ela chegou todos os sábados, às três da tarde. Juliette. Cabelo preto, longo, preso num coque que teimava em se soltar. Vestidos coloridos, sempre um pouco justos demais, que provocavam olhares e sussurros. No bairro, ela era conhecida como "a gostosa", um título que ela parecia carregar com uma indiferença estudada. Mas Júlio sabia que aquela indiferença era uma armadura.

Ele a observava do corredor de vinhos, o carrinho vazio, as mãos suando. Ela parou em frente aos iogurtes, inclinou a cabeça, lendo os rótulos. Um fio de cabelo escapou do coque, deslizando pelo pescoço. Júlio sentiu a boca seca. Era sempre assim. A distância de dez metros que os separava parecia uma linha invisível de alta tensão.

Ela o viu. Um olhar rápido, por cima do ombro. Foi o suficiente para Júlio desviar o rosto, fingindo examinar um rótulo de tinto chileno. O coração batia forte, um tambor na garganta. Ele não era um adolescente; tinha quarenta e dois anos, uma vida estável, uma esposa em casa. Mas a presença de Juliette desmontava qualquer lógica.

O que ela fazia com ele? Ele se perguntava, observando-a de relance. Ela tinha o poder de transformar o ordinário em algo extraordinário. O simples ato de pegar um pote de sorvete se tornava um evento, uma coreografia hipnótica. O vestido amarelo hoje, ele notou mentalmente. Ele a memorizava em detalhes.

Júlio empurrou o carrinho sem destino, parando numa gôndola de biscoitos. Não via os produtos. Via apenas Juliette. Ela se moveu, e ele sentiu um aperto no peito. Não era desejo puro, não exatamente. Era mais uma mistura de ansiedade e repulsa por si mesmo, uma consciência aguda da pequenez do seu próprio desejo.

Subitamente, ela estava ao seu lado. O perfume de baunilha e algo floral o atingiu como uma onda.

"O que um homem faz sozinho no corredor dos biscoitos, Júlio?", a voz dela era um sussurro, mas cortava o ar como navalha.

Ele estremeceu. Ela nunca tinha falado com ele antes. Sabia seu nome.

"Eu...", começou, mas as palavras morreram. Olhou para ela, e viu que a armadura tinha caído. Nos olhos castanhos de Juliette, ele viu uma fadiga profunda, um cansaço de ser vista, mas nunca compreendida. Havia uma tristeza ali, um abismo que ele não esperava. Seu desejo foi atravessado por um estranho pesar.

"É o único lugar onde posso pensar", conseguiu dizer.

"Pensar em quê?"

Ele desviou o olhar, focando na embalagem de um pacote de biscoitos recheados. "Em como o desejo é uma coisa cruel. Que te mostra o que você não pode ter."

Juliette riu, um som curto e sem humor. "Cruel? Talvez. Mas também é a única coisa honesta que sentimos." Ela pegou o pacote de biscoitos das mãos dele, e seus dedos roçaram os dele. A pele dela era macia e quente.

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Aquele toque foi uma faísca. Júlio sentiu um choque percorrer o braço, um desejo súbito de puxá-la para si, de sentir o corpo dela contra o seu. Era visceral, físico. Mas a imagem de sua esposa, Helena, surgiu na mente. Helena, com seus olhos serenos, seu sorriso tranquilo. A vida que ele construiu.

"Você está assustado", disse Juliette, e não era uma pergunta. Ela o estudava com uma curiosidade clínica. "Do que você tem tanto medo, Júlio?"

"De mim mesmo", a resposta escapou antes que ele pudesse impedir. "Do que eu sou capaz de querer."

Ela deu um passo à frente. A distância entre eles encolheu para quase nada. Júlio podia ver o brilho do batom, a linha fina que ela tinha entre as sobrancelhas, um sinal de preocupação ou raiva. A expectativa era sufocante. O silêncio entre eles não era vazio; era um recipiente transbordando de confissões não ditas.

"E se o que você quer...", ela começou, mas foi interrompida pelo tinido de um carrinho se aproximando.

Uma velha senhora passou por eles, olhando-os com desconfiança. Júlio se afastou, um passo, dois. A bolha estourou. Juliette suspirou e colocou o pacote de biscoitos no carrinho dele. "Leve. É o que você precisava."

Depois, sem mais uma palavra, ela se virou e foi embora, o vestido amarelo sumindo no final do corredor. Júlio ficou parado, o pacote de biscoitos na mão, o coração em disparada. O momento havia acabado, e ele não tinha feito nada. A hesitação foi sua sentença.

Na saída, o sol o cegou. Ele a viu na calçada, entrando em um carro antigo. Antes de fechar a porta, ela olhou para ele. Não era um olhar de desejo, mas de uma compreensão dolorosa. Ela sabia que ele nunca teria coragem.

Júlio dirigiu de volta para casa, o pacote de biscoitos recheados no banco do passageiro como uma prova de sua covardia. Helena estava no jardim, regando as plantas. Ele a abraçou, apertando-a forte, sentindo o perfume de terra molhada e sabão.

"Você está estranho", disse ela. "Aconteceu alguma coisa?"

"Não", ele mentiu. "Só o trânsito."

Mas naquela noite, deitado na cama, Júlio não conseguia dormir. O que Juliette havia dito ecoava em sua mente: o desejo é a única coisa honesta. Ele olhou para o teto, sentindo o peso do silêncio do quarto. A tentação não era Juliette, ele percebeu com um estalo de angústia. A tentação era a ideia de que ele poderia ser outra pessoa, alguém que se permitia querer sem culpa. E ele sabia, com uma certeza amarga, que esse alguém nunca existiria. O gosto da tentação, no final, era apenas o gosto de sua própria limitação.

✦ O que você entendeu sobre o desejo?
5 perguntas sobre "O gosto amargo da tentação" — responda com sinceridade.
1. Por que Júlio frequentava o supermercado aos sábados?
2. Qual era o sentimento predominante de Júlio ao ver Juliette?
3. O que Júlio percebeu no olhar de Juliette quando ela falou com ele?
4. Qual foi a reação de Júlio ao toque acidental de Juliette?
5. No final, qual era a verdadeira tentação para Júlio?

Conto erótico enviado por Renato Mendes, de Salvador, BA.

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Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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