
Conto erótico: Noite em Londres

A chuva fina de Londres tem um jeito particular de entrar em nós. Não é como as tempestades do Brasil, que invadem com violência e depois se vão. Aqui, a umidade se insinua devagar, penetrando os tecidos, a pele, os pensamentos. Eu estava no apartamento dele há três horas, e ainda sentia o frio da rua nos ossos, misturado àquele calor que só existe quando se está prestes a cair num abismo por escolha própria.
Ele preparou chá. O gesto era tão inglês, tão contido, que quase me fez rir. Mas eu não ria. Eu observava suas mãos — longas, com veias salientes — enquanto seguravam a xícara de porcelana. O silêncio entre nós não era vazio. Peso. Como a névoa que se acumulava do lado de fora, grudada nos vidros da janela, nos impedindo de ver o rio.
Lembro que a primeira vez que nossos olhos se encontraram, naquela noite, foi num museu. Ele estava diante de um Turner, e eu atrás, vendo como a luz da tela refletia em seu rosto. Não trocamos palavras. Só aquele olhar prolongado, que durou o suficiente para criar uma ponte invisível entre dois estranhos. Agora, naquele apartamento aquecido, a mesma ponte se recompunha, mais forte, mais perigosa.
— Você está tremendo — ele disse, e sua voz era baixa, como se tivesse medo de quebrar o encanto.
Não era frio. Era a antecipação. O desejo reprimido que vinha se acumulando desde o entardecer, quando concordei em subir com ele depois do jantar. Eu sabia o que estava fazendo. Sabia que aquele homem de sobretudo escuro e olhos cor de tempestade não me levaria para ver a paisagem noturna de Londres. Mas eu fingi que não sabia. A mentira era parte do jogo.
Ele se aproximou, e eu senti o cheiro de madeira e tabaco que o envolvia. Seus dedos tocaram minha nuca — um toque sutil, quase um acidente — e meu corpo respondeu antes que minha mente pudesse protestar. Arrepiei. Não era febre, era uma espécie de reconhecimento, como se minha pele já soubesse o caminho daqueles dedos.
— Posso te mostrar algo? — perguntou, e o tom era tão casual que quase acreditei.
Ele me levou até a janela. A cidade lá embaixo era um borrão de luzes amarelas, abafadas pela névoa. O Tâmisa corria invisível, mas eu sabia que estava ali, escuro e profundo, como tudo o que não se diz. Ele ficou atrás de mim, tão perto que sentia sua respiração no meu cabelo. Não me tocava. A distância entre nós era mais elétrica que qualquer contato.
— London pode ser solitária — ele murmurou, e a frase parecia vir de muito longe.
Conto erótico: A dançarina e o fetiche secreto que acendeu meu desejoEu quis dizer que não estava sozinha, mas as palavras se perderam em algum lugar entre o desejo e o medo. Porque eu estava. Sozinha com ele. Sozinha com aquela vontade que crescia dentro de mim como uma maré, lenta, implacável.
Ele girou meu rosto com dois dedos sob meu queixo. O olhar dele era uma pergunta. A resposta estava no meu silêncio carregado, na forma como meus lábios entreabriram antes mesmo de ele se inclinar. O beijo não foi explosivo. Foi uma descoberta. Uma exploração de territórios que ambos já conhecíamos, mas fingíamos visitar pela primeira vez.
A chuva batia nos vidros. Eu pensava em como a vida é feita desses momentos — em que o tempo para, e tudo o que existe é a textura de uma língua contra a sua, a pressão de mãos que se fecham na sua cintura, a sensação de que o mundo lá fora pode desabar, mas aqui dentro há apenas dois corpos tentando se lembrar de como respirar.
Ele me levou para o quarto. Não sei como chegamos lá. As coisas ficaram confusas, como a névoa sobre o rio. Eu me lembro de sua camisa branca caindo no chão, do som de um botão rolando pelo assoalho. Lembro de suas costas nuas sob meus dedos, de como ele estremeceu quando minha boca encontrou sua omoplata. Lembro de tudo e de nada.
O que ficou, depois, foi a sensação de estarmos deitados na cama, ouvindo a cidade dormir. Seu braço sob minha nuca, meu rosto enterrado em seu peito. O cheiro de pele, de intimidade, de algo que não tinha nome.
— Ainda está chovendo — ele disse, como se isso fosse importante.
Eu sorri no escuro. Não respondi. Porque algumas coisas não precisam de palavras. Porque o desejo, quando é verdadeiro, se basta.
Saí antes do amanhecer. Não deixei recado. Apenas a lembrança daquele beijo, daquele toque, daquela noite em que Londres se tornou a cidade mais quente do mundo.
Hoje, enquanto escrevo, a chuva cai aqui, no Brasil, e me pergunto se ele ainda mora naquele apartamento. Se, em noites de neblina, ele pensa em mim. Mas talvez seja melhor não saber. Talvez a beleza esteja exatamente naquilo que fica em suspenso, como a névoa sobre o Tâmisa, que nunca se dissipa por completo.
Conto erótico: A dançarina e o fetiche secreto que acendeu meu desejo
Conto erótico: Outono proibidoConto erótico enviado por Clara Mendes
Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)
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