
Conto erótico: Dia dos namorados com sexo

Helena chegou vinte minutos atrasada ao restaurante. O trânsito na Avenida Paulista havia transformado um trajeto de quinze minutos em quase uma hora, e o vestido azul-marinho que escolhera com tanto cuidado já acumulava pequenas marcas de suor nas costas. Encontrou Rafael sentado à mesa perto da janela, com o celular apoiado no guardanapo e um copo de água pela metade.
Ele levantou os olhos quando ela se aproximou. Não sorriu de imediato. Apenas observou, como fazia quando queria registrar alguma coisa antes de reagir.
Você mudou o cabelo, ele disse.
Helena passou a mão pela nuca, num gesto involuntário. Só cortei as pontas.
Não. Você mudou a cor. Está mais escuro.
Ela sentou-se, acomodando a bolsa no encosto da cadeira. Ficou olhando para o cardápio por alguns segundos, sem realmente ler. Doze anos de casamento. Doze anos de Dia dos Namorados, contando com aquele. E Rafael ainda notava coisas que ninguém mais notaria.
Foi sem querer, ela mentiu. O salão estava com uma promoção.
Ele assentiu devagar, sem acreditar, e voltou ao cardápio. Helena sentiu o peso daquele olhar por cima da mesa, mesmo quando ele desviou. Havia algo diferente naquela noite. Não sabia nomear ainda.
O restaurante era pequeno, de luz baixa e mesas próximas. Um casal na mesa ao lado dividia uma sobremesa com dois garfos. Helena pensou em como Rafael odiava dividir comida. Em como, no começo, ela achava aquilo um defeito. Depois aprendeu a pedir o que queria sem esperar que ele oferecesse.
Você pediu vinho? ela perguntou.
Pedi. Tinto. Você prefere branco, eu sei. Mas hoje eu escolhi.
Havia um sorriso discreto no canto da boca dele. Helena ergueu uma sobrancelha.
Hoje você escolheu?
É. Hoje eu escolhi.
O garçom trouxe o vinho, serviu duas taças, e Rafael brindou sem dizer nada. Helena bebeu. O líquido desceu morno, deixando um rastro de especiarias na garganta. Ela olhou para as mãos dele sobre a toalha branca. Dedos longos, unhas curtas, a aliança levemente arranhada de tanto ser usada.
Doze anos.
Ela lembrou da primeira vez que o viu, num curso de fotografia em Botucatu. Ele usava uma camiseta preta e falava pouco. Ela achou que fosse arrogante. Depois descobriu que era apenas tímido. Levaram três meses para se beijar. Naquela época, tudo parecia urgente.
Agora, o urgente era o quê?
Você está quieta, ele disse.
Estou pensando.
Em quê?
Helena girou a taça entre os dedos. Em como a gente chegou aqui. Em como você ainda me olha como se soubesse alguma coisa que eu não sei.
Rafael inclinou-se levemente para frente. A luz da vela na mesa refletiu no rosto dele, marcando as linhas que os anos tinham desenhado. Ele estava mais bonito agora do que quando se conheceram. Havia uma segurança no jeito como ocupava o espaço, no jeito como a olhava sem pressa.
Talvez eu saiba, ele disse.
O quê?
Que você mentiu sobre o cabelo.
Helena riu. Um riso curto, surpreso, que morreu logo. Ela baixou os olhos para o prato. O garçom trouxe a entrada, e comeram em silêncio por alguns minutos. O silêncio não era incômodo. Era cheio de coisas ditas sem serem ditas.
Ela percebeu, então, que Rafael não estava olhando para o prato. Estava olhando para ela. Para a curva do ombro que o vestido deixava à mostra. Para a mão que ela levava à boca. Para a forma como ela mordia o lábio antes de falar.
Você está me analisando, ela disse.
Estou te olhando. É diferente.
Qual é a diferença?
Olhar é quando eu só quero ver. Analisar é quando eu quero entender.
E o que você quer entender?
Rafael demorou a responder. Bebeu um gole de vinho, pousou a taça e disse:
Por que você mentiu sobre o cabelo.
Helena sentiu o rosto esquentar. Não era uma acusação. Era uma constatação. Ele sabia. Talvez soubesse desde o momento em que ela entrou no restaurante. Talvez soubesse antes.
Porque eu queria que você percebesse, ela disse, finalmente.
Rafael assentiu devagar. Como se aquela fosse a resposta que ele esperava. Como se estivesse apenas confirmando uma hipótese.
O jantar seguiu. Falaram sobre o trabalho dele, sobre a exposição de fotografia que ela estava montando, sobre a viagem que adiavam há dois anos. Falaram sobre coisas pequenas e coisas grandes. Rafael pediu a conta, pagou, e os dois saíram para a rua.
O ar da noite estava mais fresco. Helena sentiu o vento no rosto, aliviando o calor que se acumulara durante o jantar. Eles caminharam em silêncio até o carro. Rafael abriu a porta para ela, como sempre fazia. Helena entrou, e ele fechou a porta com cuidado.
Dentro do carro, o silêncio era diferente. Mais denso. Rafael ligou o motor, mas não saiu. Ficou olhando para frente, as mãos no volante, os dedos tensos.
Helena esperou.
Ele virou o rosto para ela. Olhou-a por um longo tempo. Não havia pressa naquele olhar. Havia uma espécie de decisão.
Você sabe o que eu quero, ele disse.
Helena não respondeu. O coração batia mais forte do que deveria. Ela sabia. Sabia desde o momento em que ele disse que tinha escolhido o vinho. Sabia desde o momento em que ele notou o cabelo. Sabia desde o momento em que ele disse que ela mentiu.
Ela sabia.
Mas queria ouvir.
Diz, ela pediu.
Rafael estendeu a mão e tocou o rosto dela. Os dedos desceram pelo maxilar, pelo pescoço, até a clavícula. Pararam ali. Ele olhava para a pele, para o ponto onde o vestido começava, para o que estava escondido.
Eu quero que você escolha, ele disse.
Escolha o quê?
O que vai acontecer quando a gente chegar em casa.
Helena fechou os olhos. Sentiu a mão dele ainda no pescoço, imóvel, esperando. Ela pensou em todas as noites dos últimos meses. Nas vezes em que se deitaram lado a lado sem se tocar. Nas vezes em que ela quis, e não disse. Nas vezes em que ele quis, e não disse. Nos silêncios que se acumularam até virarem uma parede.
Ela abriu os olhos.
Então dirige, ela disse.
Rafael sorriu. Um sorriso lento, que começou nos olhos e desceu para a boca. Ele tirou a mão, ligou o carro e saiu.
O trajeto até o apartamento foi feito em silêncio. Helena olhava pela janela, vendo as luzes da cidade passarem. Sentia o corpo inteiro em alerta. Cada célula esperando. Cada pensamento girando em torno do que viria.
Quando chegaram, Rafael estacionou na garagem e desligou o motor. Ficaram parados por um instante. O silêncio do carro era absoluto.
Vamos subir, ele disse.
Conto erótico: Dia internacional da mulher com muito sexoHelena abriu a porta antes que ele pudesse fazê-lo. Subiram no elevador sem se tocar. O espelho da cabine refletia os dois, lado a lado, a distância de um palmo entre eles. Helena viu o rosto dele no reflexo. Ele a olhava.
A porta do elevador abriu. Caminharam pelo corredor. Rafael abriu a porta do apartamento. Helena entrou primeiro.
A casa estava escura, silenciosa. Ela acendeu a luz da sala e ficou parada no meio do cômodo. Ouviu Rafael fechar a porta atrás de si. Ouviu o clique da fechadura. Ouviu os passos dele no corredor.
Ele parou atrás dela. Perto o suficiente para que ela sentisse o calor do corpo dele. Longe o suficiente para que ela tivesse que decidir.
Helena virou-se.
Rafael estava ali, a um passo de distância. Olhando-a. Esperando.
Ela deu um passo à frente.
O beijo começou devagar. Os lábios dele tocaram os dela com uma delicadeza que ela não esperava. Ele não avançou. Não apressou. Deixou que ela sentisse o gosto do vinho, o calor da boca, a respiração que se misturava.
Helena ergueu as mãos e segurou o rosto dele. Aprofundou o beijo. Sentiu a língua dele, o ritmo que ele impunha, a mão que descia pelas costas dela até a cintura.
Rafael afastou-se por um instante. Olhou-a nos olhos.
Você tem certeza? ele perguntou.
Helena respondeu puxando-o pela camisa.
Ele a guiou até o quarto. No caminho, as mãos dele desabotoaram o vestido. O tecido caiu pelos ombros, pela cintura, até o chão. Helena sentiu o ar frio na pele, depois o calor das mãos dele.
Rafael a deitou na cama. Ficou por cima, apoiado nos braços, olhando-a. A luz do abajur desenhava sombras no rosto dele. Havia algo nos olhos dele que ela não via há muito tempo. Fome. Não de comida. Fome de algo mais.
Ele beijou o pescoço dela. Desceu pelo colo. Cada beijo era uma pergunta. Cada toque era uma resposta. Helena arqueou as costas, sentindo o corpo responder antes da mente. As mãos dele percorriam a pele dela como se estivessem redesenhando um mapa que conheciam de cor, mas que haviam esquecido.
Rafael parou. Olhou-a.
Diz o que você quer, ele pediu.
Helena respirou fundo. O coração batia tão forte que ela sentia nas têmporas.
Eu quero você, ela disse. Sem pressa. Sem medo. Sem a gente fingindo que não quer.
Ele sorriu. Um sorriso que ela não via há meses. Um sorriso que dizia que ele entendia.
Então não vamos fingir, ele disse.
O resto da noite não teve pressa. Rafael a beijou como se estivesse aprendendo de novo. Cada movimento era deliberado. Cada gesto era uma pergunta que exigia resposta. Helena sentia o corpo dele contra o seu, a pele quente, o peso do desejo que haviam guardado por tempo demais.
Quando ela puxou-o para si, ele não resistiu. Quando ela pediu mais, ele deu. Quando ela pediu que parasse, ele parou. Havia um ritmo entre os dois. Um ritmo que descobriram naquela noite, como se tivessem esquecido e estivessem relembrando.
A madrugada chegou sem que percebessem. Helena estava deitada de lado, a cabeça no peito dele. Ouvia as batidas do coração de Rafael, mais lentas agora. Sentia a mão dele no cabelo, os dedos passando pelas mechas com uma lentidão que beirava o sono.
Você mentiu sobre o cabelo, ele disse.
Helena riu, o rosto escondido no peito dele.
Você já falou isso.
É porque foi a primeira coisa que eu notei quando você entrou no restaurante. Antes de você sentar. Antes de você falar. Eu olhei para você e vi que tinha algo diferente.
E o que você pensou?
Pensei que você estava querendo me dizer alguma coisa. E que não sabia como.
Helena ficou em silêncio por um momento. A mão dele continuava no cabelo dela. Lá fora, a cidade começava a acordar. Os primeiros carros passavam na rua. A luz do dia infiltrava-se pelas frestas da cortina.
Eu estava, ela disse. Querendo dizer alguma coisa. Mas não sabia como.
E agora?
Agora eu acho que você entendeu.
Rafael beijou o topo da cabeça dela.
Acho que sim, ele disse. E acho que você também entendeu.
Helena fechou os olhos. O corpo dela ainda vibrava com o que tinham feito. A pele ainda sentia o toque dele. A mente ainda tentava organizar os pensamentos, mas desistiu. Não havia necessidade de organizar nada. Não naquela manhã.
Ela adormeceu ali, no peito dele, sentindo o coração de Rafael bater no ritmo do dela.
Quando acordou, o sol entrava pela janela. Rafael não estava na cama. Helena sentou-se, olhou ao redor. O vestido azul-marinho estava dobrado numa cadeira, ao lado de uma camiseta dele. Ela vestiu a camiseta e saiu do quarto.
Encontrou Rafael na cozinha, preparando café. Ele estava de calças de pijama, o cabelo despenteado, a camisa amassada. Olhou para ela quando ela entrou.
Bom dia, ele disse.
Bom dia.
Ele serviu duas xícaras de café. Helena sentou-se no banco alto da bancada. Rafael ficou de pé, do outro lado, olhando-a.
Você sabe que não vai ser sempre assim, ele disse.
Helena ergueu os olhos.
O quê?
Fácil. A gente vai voltar para a rotina. Vai ter dias em que a gente não vai se olhar. Vai ter dias em que a gente vai se irritar. Vai ter dias em que a gente vai esquecer.
Helena bebeu um gole de café. O líquido quente desceu pela garganta.
Eu sei, ela disse. Mas talvez a gente possa lembrar.
Rafael assentiu. Deu a volta na bancada e parou ao lado dela. Tocou o rosto dela com a mão, o mesmo gesto da noite anterior. Os dedos desceram pelo maxilar, pelo pescoço, até a clavícula.
Talvez a gente possa lembrar, ele repetiu.
Helena segurou a mão dele. Olhou para os dedos entrelaçados, para a aliança que ele usava, para a pele que ela conhecia tão bem.
Quiz: O presente que ela escolheu
Será que você prestou atenção no que importa?
1. O que Helena mentiu para Rafael no restaurante?
2. Quem escolheu o vinho tinto naquela noite?
3. O que Rafael pediu a Helena dentro do carro, antes de dirigir para casa?
4. Onde Helena e Rafael se conheceram, segundo a lembrança dela?
5. O que Rafael disse que queria fazer no dia seguinte, na cozinha?
O que você quer fazer hoje? ela perguntou.
Rafael pensou por um momento.
Quero ficar aqui, ele disse. Com você. Sem pressa.
Helena sorriu.
Então fica.
Ele ficou.
Conto erótico enviado por Mariana Vasconcelos, de Belo Horizonte.
Conto erótico: Dia internacional da mulher com muito sexo
Conto erótico: O que o Leão não diz no dia a dia fala na intimidadeConteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)
Go up



Deixe um comentário