Conto erótico: O que o signo de virgem guardava

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Ela chegou atrasada quatorze minutos. Eu já tinha contado cada um deles, não por impaciência, mas porque a pontualidade dela era uma das coisas que eu observava desde o início. Tudo nela parecia calculado, do jeito de dobrar o guardanapo ao modo como escolhia as palavras. Naquela noite, porém, havia algo diferente. O cabelo preso de qualquer maneira, um botão a mais aberto na camisa, o batom levemente borrado no canto da boca. Pequenas imperfeições que, em alguém tão meticuloso, funcionavam como um grito.

"Desculpa", disse ela, sentando-se sem tirar o casaco. "O dia foi um caos."

Não perguntei o que tinha acontecido. Aprendi que com ela o silêncio rendia mais do que qualquer interrogatório. Pedi uma bebida, ela recusou a dela e ficou olhando para as mãos. Unhas curtas, sem esmalte. Isso também era novo. Durante meses, eu a vira chegar com as unhas impecáveis, quase cirúrgicas. Naquela noite, estavam cruas, como se ela tivesse desistido de alguma coisa, ou decidido outra.

"Você está me analisando", ela disse, sem levantar os olhos.

"Estou."

"E o que concluiu?"

"Que você veio aqui para dizer alguma coisa e ainda não decidiu se vai dizer."

Ela riu, mas foi um riso curto, sem alegria. Pediu minha bebida, tomou um gole, devolveu. O gesto tinha algo de intimidade emprestada, como se ela estivesse testando um território.

Conversamos sobre coisas pequenas. O filme que ela tinha visto sozinha, o projeto que eu estava tocando, a chuva que não vinha. Tudo servia de anteparo. Eu conhecia aquela coreografia. Ela era de Virgem, e eu já tinha aprendido que virginianos não mentem, apenas omitem com precisão. Cada palavra era escolhida, cada pausa tinha função. O que me inquietava era perceber que, naquela noite, o controle estava custando mais do que o habitual. Ela apertava o guardanapo entre os dedos, alisava a toalha, mexia no copo. O corpo dizia o que a boca não dizia.

Foi quando ela tirou o casaco. Não foi um gesto teatral, foi quase um descuido, como se o calor do ambiente a tivesse vencido. Sob a camisa, a pele do colo estava marcada por uma alça fina, e eu notei, sem querer notar, que ela não usava nada por baixo além daquilo. Não comentei. Ela percebeu que eu percebi. Ficamos os dois parados nessa constatação silenciosa, e o ar entre nós mudou de densidade.

"Você lembra da primeira vez que a gente se viu?", ela perguntou.

"Lembro."

"Eu pensei que você fosse insuportável."

"E continua pensando?"

"Às vezes." Ela finalmente me olhou. "Mas mudei de ideia sobre outras coisas."

O garçom veio, ela pediu água, eu pedi a conta. Não combinamos nada. Apenas nos levantamos, e ela vestiu o casaco com pressa, como se estivesse com frio de repente. Na rua, a cidade tinha aquela umidade de fim de noite, cheiro de asfalto e fritura. Ela caminhava ao meu lado, meio passo atrás, e eu diminuí o ritmo para que ela alcançasse. Não tocamos as mãos. Mas em determinado momento, ao desviar de uma poça, ela encostou o ombro no meu, e não se afastou.

"Você vai me convidar para subir?", ela perguntou, quando paramos em frente ao meu prédio.

"Você quer subir?"

"Perguntei primeiro."

Subimos. No elevador, ela ficou de costas para mim, olhando os números. Eu podia ver a nuca dela, a pele clara, um fio de cabelo solto. Quando as portas se abriram, ela saiu antes de mim, como se conhecesse o caminho. E conhecia, porque já tinha estado ali outras vezes, sempre de passagem, sempre com pressa, sempre com o casaco fechado.

Dentro do apartamento, ela tirou os sapatos e ficou descalça no tapete. Não pedi que fizesse isso. Ela simplesmente fez. Fui até a cozinha pegar água, e quando voltei, ela estava na varanda, olhando a cidade. O vento mexia no cabelo dela, e a camisa, agora sem o casaco, desenhava as costas com uma precisão que me incomodou. Não de desejo, ainda. De reconhecimento. Como se eu estivesse vendo uma coisa que sempre soube, mas nunca tinha admitido.

"Você já pensou que a gente poderia ter feito isso antes?", ela disse, sem se virar.

"Já."

"E por que não fez?"

"Porque você não quis."

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Ela se virou devagar. O rosto estava sério, mas os olhos estavam molhados, e não era de tristeza. Era de cansaço. O cansaço de quem passou meses segurando uma porta fechada e agora não sabia mais como soltar a maçaneta.

"Eu não sabia como", ela disse. "Sempre achei que, se eu deixasse acontecer, ia perder alguma coisa. Controle, talvez. Ou a ideia que eu tinha de mim mesma."

"E agora?"

"Agora eu estou com medo de perder outra coisa."

Ela deu dois passos na minha direção. Parou a um palmo do meu peito. Não me tocou. Ficou ali, olhando para cima, esperando. Eu podia sentir o calor dela, o cheiro de sabonete e um resto de perfume que já tinha quase desaparecido. Não fiz nada. Queria que ela decidisse. Queria que fosse ela a fechar a distância, porque sabia o que aquilo custava para alguém como ela.

Ela fechou os olhos. Respirou fundo. E então encostou a testa no meu peito, como se estivesse se rendendo a alguma coisa que não tinha nome. Fiquei parado, com os braços ao longo do corpo, sentindo a respiração dela contra o tecido da minha camisa. Um minuto, talvez dois. O tempo passou devagar, do jeito que passa quando a gente sabe que alguma coisa está prestes a mudar.

"Me abraça", ela pediu, com a voz baixa. "Só me abraça."

Eu a abracei. Primeiro devagar, depois com mais força. Ela encaixou a cabeça no meu ombro e ficou ali, quieta. Não havia pressa. Não havia gesto ensaiado. Era só duas pessoas que tinham passado tempo demais fingindo que não queriam a mesma coisa. Quando ela levantou o rosto, os olhos estavam abertos, e não havia mais hesitação neles. Havia uma pergunta. Eu respondi com o silêncio, e ela entendeu.

O beijo foi lento. Começou como continuação do abraço, sem urgência, só reconhecimento. Ela tinha os lábios macios e um jeito de morder de leve que me fez rir contra a boca dela. Ela riu também, e o riso desmanchou a tensão que restava. Depois ficamos nos olhando, a poucos centímetros, e eu vi que ela estava chorando. Duas lágrimas, só. Ela limpou com as costas da mão, sem drama.

"Desculpa", ela disse. "Não é tristeza."

"Eu sei."

"É que eu passei muito tempo com medo disso."

"E agora?"

"Agora eu estou aqui."

Ela tirou a camisa sozinha, sem que eu pedisse. Não foi um gesto de sedução, foi um gesto de entrega. A pele dela tinha marcas de sol, pequenas, nas costas. Eu passei os dedos por elas, devagar, e ela fechou os olhos de novo. Não fizemos nada com pressa. Cada gesto era uma pergunta, cada resposta era um sim. Ela me guiava sem palavras, com o corpo, com a respiração, com a maneira como apertava minha mão quando alguma coisa dava certo.

Mais tarde, deitados no escuro, ela ficou olhando o teto.

"Você sabia que eu ia acabar vindo?", ela perguntou.

"Sabia."

"Como?"

"Porque você é de Virgem. Vocês não fazem nada sem pensar muito. E quando decidem, decidem de verdade."

Ela riu, dessa vez sem peso.

"Então você estava esperando."

"Eu estava esperando."

Teste seus conhecimentos O que você entendeu do que Virgem guardava? Cinco perguntas sobre a noite, os gestos e o que ficou sem ser dito.
Pergunta 1Por que o narrador percebe que algo mudou naquela noite?
Pergunta 2O que o narrador diz sobre o jeito de Virgem se comportar?
Pergunta 3O que ela revela na varanda antes do beijo?
Pergunta 4Como o narrador reage quando ela encosta a testa no peito dele?
Pergunta 5O que o narrador conclui sobre a decisão dela no fim?
Você ainda deixou algumas perguntas sem resposta. Vamos lá, responda todas.

Ela se virou de lado, apoiou a cabeça no meu peito e ficou ali, quieta, até o sono chegar. Eu fiquei acordado mais um tempo, olhando o teto, pensando que algumas coisas não precisam ser ditas para serem verdade. Algumas pessoas passam meses construindo uma parede, e depois, numa noite qualquer, tiram um tijolo. Só um. E é o suficiente.

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Conto erótico enviado por Mariana Feitosa, de Recife, Pernambuco.

Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)

Suellen Gomes

Suellen Gomes é pesquisadora e criadora de conteúdo voltada para o universo da sensualidade, bem-estar sexual e autoestima. À frente do Fetiche em pé, trabalha na desmistificação de fetiches e fantasias, promovendo um diálogo seguro, consensual e informativo sobre a liberdade de expressão corporal. Sua missão é empoderar pessoas através do conhecimento e do respeito aos próprios desejos.

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