
Conto erótico: Signo de escorpião que picadura

Ela chegou com o mapa do céu debaixo do braço, dobrado como quem carrega um segredo. Não era um mapa comum. Era um mapa astral, impresso em papel almaço, com linhas que se cruzavam como veias abertas. Colocou sobre a mesa da cozinha, alisou as dobras com a palma da mão e disse que eu precisava ver uma coisa.
O apartamento era pequeno, desses que a gente aluga por temporada e nunca sente como casa. Ainda assim, tinha uma janela que dava para um pátio interno com um limoeiro. O cheiro das folhas entrava à noite, quando o vento mudava. Naquela noite, o cheiro era de chuva próxima.
Ela apontou para o papel. "Escorpião", disse. "Sol em Escorpião. Lua em Escorpião. Vênus em Escorpião." Ri. Não porque não acreditasse, mas porque era o tipo de coisa que ela diria. Sempre teve um gosto por intensidades, por signos que prometem profundidade. Eu, com meu ascendente em Gêmeos, achava aquilo tudo um pouco teatral. Mas não disse.
Ela se inclinou sobre a mesa. O decote da blusa se abriu um pouco, e eu desviei os olhos por educação, ou por covardia, ou por alguma coisa entre as duas. "Você não acredita", disse ela, sem mágoa. "Tudo bem. A maioria das pessoas não entende Escorpião. Acham que é só sexo e morte."
"E não é?"
"É sobre não ter medo de olhar."
Ficamos em silêncio. O relógio da parede fazia um barulho de máquina velha. Ela dobrou o mapa novamente, mas não o guardou. Deixou sobre a mesa, como quem deixa um baralho embaralhado. Depois foi até a janela e ficou olhando o limoeiro. A blusa subiu um pouco nas costas, revelando uma faixa de pele que eu não deveria estar observando. Observei.
"Você sabe o que dizem sobre Escorpião?", perguntou, sem se virar.
"Que são vingativos."
"Que são leais. Até o fim. E que quando amam, amam com uma intensidade que assusta."
Ela se virou. O cabelo escuro caiu sobre um dos ombros. Havia algo de calculado naquele movimento, mas também algo de verdadeiro. Era isso que me desconcertava nela. A capacidade de ser ao mesmo tempo encenação e sinceridade. Como se cada gesto fosse uma aposta.
"Você já amou alguém assim?", perguntei.
"Já. E foi um erro."
"Por quê?"
"Porque eu não soube dosar. Escorpião não dosa. Escorpião mergulha."
Aproximei-me da janela. O limoeiro balançava. A chuva finalmente começou, fina, quase invisível, dessas que molham devagar. Ela não se afastou quando cheguei perto. Ficamos os dois olhando para fora, e eu sentia o calor do braço dela a poucos centímetros do meu. A distância parecia uma coisa viva, algo que respirava.
"Você está me analisando", disse ela.
"Estou."
"E o que concluiu?"
"Que você quer que eu acredite em algo."
"E você quer?"
Pensei na resposta. Não era simples. Ela tinha razão sobre uma coisa: Escorpião não é sobre sexo e morte. É sobre a coragem de encarar o que a maioria prefere ignorar. Ela queria que eu olhasse. Não para o mapa, mas para ela.
Virei-me. Ela também. Ficamos frente a frente, e o espaço entre nós era agora menor do que a distância entre duas pessoas que se conhecem há meses. Ela tinha os lábios levemente entreabertos. Não sei se era convite ou respiração. Talvez as duas coisas.
"Posso te mostrar uma coisa", disse ela.
"O quê?"
"O mapa não é só do céu. É do corpo também."
Ela pegou minha mão. Os dedos dela eram frios, mas firmes. Guiou-me até o sofá, sentou-se e puxou-me para o lado. O mapa astral ficou esquecido na mesa. Ela apontou para o próprio pulso, onde havia uma pequena tatuagem que eu nunca tinha notado. Um escorpião minúsculo, quase invisível.
"Fiz quando tinha dezenove anos. Me arrependi. Mas não removi."
"Por quê?"
"Porque me lembra de quem eu sou."
Ela virou o braço. A luz da lâmpada incidia sobre a pele, e eu pude ver as linhas finas do desenho. Toquei. Ela não recuou. O pulso dela acelerou sob meus dedos.
"Você sente?", perguntou.
"Sinto."
Conto erótico: Signo de libra sem vergonha"É isso que Escorpião faz. Sente tudo. Não tem pele grossa. Não tem filtro. Por isso as pessoas se assustam."
A chuva aumentou. Batia agora na janela com mais força. Ela se aproximou. O perfume era discreto, algo de madeira e baunilha. Fechei os olhos por um segundo. Quando abri, ela estava olhando para mim com uma fixidez que doía.
"Você vai fugir?", perguntou.
"Não."
"Todo mundo foge."
"Não eu."
Ela sorriu. Não era um sorriso de alegria. Era um sorriso de reconhecimento. Como se ela tivesse encontrado algo que procurava há muito tempo e já não esperasse encontrar. Puxou minha mão para o próprio rosto. Encostou meu dedo na bochecha. Depois na boca. Depois no queixo.
"Cada parte do corpo tem um signo", disse ela, a voz mais baixa. "A boca é Gêmeos. O queixo é Touro. O pescoço é Câncer. Você sabia?"
"Não."
"Escorpião fica aqui."
Ela levou minha mão até a base da coluna, onde as vértebras se encontram com o quadril. O toque era por cima da blusa, mas eu senti o calor. E senti o tremor. Dela ou meu, não sei.
"É o centro", disse ela. "Onde tudo se conecta."
Ficamos assim por um tempo. A mão dela sobre a minha, as duas sobre aquele ponto do corpo. A chuva lá fora. O limoeiro. O relógio. Nada mais existia. Ela respirou fundo e soltou o ar devagar, como quem solta uma coisa que carregou por muito tempo.
"Você entendeu", disse.
"Entendi."
"Então me beija."
Beijei. Não foi um beijo de urgência. Foi um beijo de reconhecimento. Ela abriu a boca devagar, e eu senti o gosto de café e algo mais, algo que não sei nomear. A mão dela subiu para o meu cabelo. A minha desceu para a cintura. O corpo dela era quente, e eu me lembrei de uma coisa que minha avó dizia: que gente de Escorpião tem sangue quente. Não sei se é verdade. Naquele momento, pareceu.
Quando nos separamos, ela estava com os olhos úmidos. Não de choro. De algo mais. De uma emoção que não cabia em palavras.
"Eu tenho medo", disse ela.
"De quê?"
"De você ir embora."
"Acabei de chegar."
"Todo mundo vai embora."
"Eu não."
Ela me olhou por um longo tempo. Depois pegou o mapa astral na mesa, dobrou com cuidado e guardou na bolsa. "Vou deixar com você", disse. "Para você lembrar."
"Lembrar do quê?"
"De que você olhou."
Ela foi embora antes que eu pudesse responder. A porta se fechou com um clique suave. Fiquei no sofá, com o cheiro dela no ar e o barulho da chuva. O mapa ficou sobre a mesa, ainda dobrado. Não o abri. Não precisava. Eu já tinha visto o que importava.
Quiz: O Mapa do Corpo
Teste o que você entendeu sobre desejo, astrologia e a arte de não fugir.
1. O que a personagem coloca sobre a mesa da cozinha no início da história?
2. Qual signo a personagem afirma ter em três posições diferentes?
3. O que a personagem diz que Escorpião realmente significa, além de sexo e morte?
4. Onde a personagem diz que Escorpião fica no corpo?
5. O que a personagem faz com o mapa astral antes de ir embora?
Na manhã seguinte, o limoeiro estava molhado, e o céu, limpo. Ela não voltou. Não deixou recado. Às vezes, quando o vento entra pela janela, sinto aquele perfume de madeira e baunilha, e me lembro da base da coluna, do ponto onde tudo se conecta. Escorpião não é sobre sexo e morte. É sobre não ter medo de olhar. E eu olhei.
Conto erótico: Signo de libra sem vergonha
Conto erótico: O que o signo de virgem guardavaConto erótico enviado por Renata Vasconcelos, de Belo Horizonte.
Conteúdo proibido para menores de 18 anos. Em Contos eróticos temos diversos artigos sobre este tema. Recomendo :)
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